Tuesday, April 24, 2007

25 de Abril sempre!

Do livro A liberdade, o que é?, de José Jorge Letria, oferecido à R. (obrigada F. e S.)

"A Liberdade
é um circo que torna livres
todos os bichos."

"A Liberdade
é um pequeno gesto
onde cabe tudo o resto."

"A Liberdade
é um ponto final
em tudo o que nos faz mal."

"A Liberdade
é um capitão a beijar
a alegria de um cravo."

"A Liberdade
é ter tempo para dar
mais tempo aos outros."

"A Liberdade
é um menino
de todas as cores."

"A Liberdade
é um país sem medo
a tentar ser feliz."

Friday, April 20, 2007

Mas isto não tem solução?

Como gosto de futebol, custa-me muito que parte da claque no meu clube seja constituída por energúmenos, que aproveitam as emoções fortes que este desporto provoca para dar largas às suas personalidades doentes. Não há espectáculo mais triste do que ver chegar as claques aos estádios, rodeadas de polícia de intervenção por todos os lados, insultando tudo e todos aos gritos. Infelizmente, parecem o que são: criminosos a ser transportados de jaula em jaula. E é lamentável que os clubes os apoiem e achem que precisam deles para alguma coisa.

Que esta gente tenha protagonismo no mundo corrupto do futebol já é absurdo, mas que passem para a prática partidária democrática é mesmo ridículo. Como é possível que seja permitido ter um partido político cujos militantes gritam, à porta da PJ, "Viva o Hitler, seus filhos da p***"? Que sentido faz isto?

E como parece que toda a gente acha isto normal, acho que a única solução é haver mais jogos de futebol. Pelo menos, assim, sabemos onde é que eles andam e a polícia está de olho neles...

Wednesday, April 18, 2007

Tell me, why? I don't like Mondays!

Um massacre numa universidade americana, resultou em mais de trinta mortos. Mais um, diz-se, porque já vamos ficando indiferentes. Ouvi mesmo um comentador dizer que aquela era uma escola com um plano anti-terrorismo, que se não conseguiu evitar um ataque isolado não teria resistido a um ataque terrorista, que as pessoas têm tendência a ir esquecendo as coisas (como o 11 de Setembro) e não a tirar lições delas, blá, blá, blá...

Eu fico sempre a pensar o que é que teria passado pela cabeça daquelas pessoas que acordam um dia e massacram dezenas de pessoas. E nos pais delas, que, aposto, quando elas nasceram não pensavam que esse era o seu destino. E lembro-me sempre da música dos Boomtown Rats, a banda de Bob Geldof, que é sobre uma rapariga de dezasseis anos que, numa segunda-feira, alvejou os alunos de uma escola primária. Quando lhe perguntaram porquê, respondeu "I don't like Mondays".

I don't like Mondays - Boomtown Rats

"The silicon chip inside her head
Gets switched to overload.
And nobody's gonna go to school today,
She's going to make them stay at home.
And daddy doesn't understand it,
He always said she was as good as gold.
And he can see no reason
'Cause there are no reasons
What reason do you need to be shown?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down.

The telex machine is kept so clean
As it types to a waiting world.
And mother feels so shocked,
Father's world is rocked,
And their thoughts turn to
Their own little girl.
Sweet 16 ain't so peachy keen,
No, it ain't so neat to admit defeat.
They can see no reasons
'Cause there are no reasons
What reason do you need to be shown?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down.

All the playing's stopped in the playground now
She wants to play with her toys a while.
And school's out early and soon we'll be learning
And the lesson today is how to die.
And then the bullhorn crackles,
And the captain crackles,
With the problems and the how's and why's.
And he can see no reasons
'Cause there are no reasons
What reason do you need to die?

Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
Tell me why?
I don't like Mondays.
I want to shoot
The whole day down."

Friday, April 13, 2007

Sexta-feira 13, bora esconjurar bruxas e beber uma queimada virtual?

Conjuro galego da queimada

(...)
E cando este brebaxe
baixe polas nosas gorxas,
quedaremos libres dos males
da nosa alma e de todo embruxamento.

Forzas do ar, terra, mar e lume,
a vós fago esta chamada:
si é verdade que tendes máis poder que a humana xente,
eiquí e agora, facede cós espritos
dos amigos que estan fóra, participen con nós desta Queimada.

Thursday, April 12, 2007

Ó senhor bacharel de civil assine lá este projecto!

Como não podia deixar de ser, aqui também tem de haver um post sobre a polémica do diploma, da licenciatura, das cadeiras, das mesas e das mesinhas de cabeceira do Primeiro Ministro.

Como qualquer português curioso da vida alheia, lá estive a ver a entrevista, para ver se o senhor se justificava, nos convencia ou não, se espalhava ao comprido, etc. E como, de repente, toda a gente percebe imenso de cadeiras, equivalências, burocracias universitárias e afins, suponho que foi uma entrevista que o país seguiu com atenção.

Nem acho que valha a pena discutir o cerne da questão, que me parece arrumado há que tempos. Agora, pareceu-me que o comportamento dos jornalistas foi agressivo e irritante, chegando a fingir-se ingénuos para fazer perguntas que chegavam a ser insultuosas.

A minha preferida foi aquela de os bacharéis de engenharia civil serem ou não engenheiros. Um comentador a seguir à entrevista, até já falava do "uso social do título de engenheiro"... isto é só um exemplo, mas há muitos anos que em Portugal se chamam a estas pessoas engenheiros técnicos (até já vi coisas assinadas com "Engenheiro Civil, bacharel").

Enfim, haja paciência...

Wednesday, April 11, 2007

Afinal, quem é que é Independente?

Todo este folhetim do fecho / não fecho da Independente me deixa dividida. Por um lado, penso "bem feita", estes gajos pensam que podem fazer tudo e ficar impunes. Por outro, tenho realmente pena dos alunos e dos professores que, na sua boa fé, perdem o investimento de anos e os empregos, ficando todos em situações precárias e de insegurança face ao futuro. Claro que há para aí universidades que receberão os alunos de braços abertos, mas dificilmente ficarão com equivalências totais e vão de certeza ter de fazer mais cadeiras.

E o pior é que nunca temos a certeza de a justiça ir realmente funcionar e de, no fim, ser punido quem deve. Eu não sou daqueles pessimistas que não gostam de Portugal e que estão sempre a dizer mal de tudo, mas, de facto, no que toca ao sistema judicial (ao contrário de outras áreas) temos vindo a marcar passo, para não dizer que andamos para trás. E estou cansada desta realidade em que quem se lixa é sempre o mexilhão. Portanto, porque sou optimista, espero que os senhores vão para a cadeia e paguem as dívidas que constraíram. E que o Pinto da Costa e o Valentim Loureiro lhes façam companhia, já agora...

Tuesday, April 10, 2007

A cidade e as serras

Muitas vezes tenho pensado que viver em Lisboa tem muito pouco de urbano. Pelo menos aqui para as minhas bandas, enquanto os vizinhos reformados forem os principais actores do nosso cenário. Todos os dias assisto a pequenas cenas da vida de aldeia, ao melhor estilo de Júlio Dinis. Mal acontece qualquer coisa, aparece o Sr. António, sempre com o seu boné americano, a indagar, a oferecer ajuda, a dar dois dedos de conversa. Nada passa despercebido. Se já lá vão os tempos dos coelhos e galinhas nas capoeiras, continuamos a ter vizinhas de chinelas e avental a passear os cães (e gatos!), a conviver harmoniosamente com os novos residentes, com os seus horários impossíveis e as suas vivências "modernas". Se calhar, isto é que é viver num meio urbano...

Monday, April 9, 2007

As alegrias da Páscoa infantil!

O coelho Alberto disse ao neto
que é perigoso andar a passear
pois lá na selva há crocodilos
e os coelhinhos dão um bom jantar

Mas o coelhinho não deu ouvidos
e para a selva foi passear
veio de lá um crocodilo
abre a boca e....

passo a passo o crocodilo avança...

Ai que susto, ai que susto
que apanhei no coração
a cabeça está tão quente
ai que dor que aflição!

Monday, April 2, 2007

Abril de sim, Abril de Não Manuel Alegre

Eu vi Abril por fora e Abril por dentro
vi o Abril que foi e Abril de agora
eu vi Abril em festa e Abril lamento
Abril como quem ri como quem chora.
Eu vi chorar Abril e Abril partir
vi o Abril de sim e Abril de não
Abril que já não é Abril por vir
e como tudo o mais contradição.
Vi o Abril que ganha e Abril que perde
Abril que foi Abril e o que não foi
eu vi Abril de ser e de não ser.
Abril de Abril vestido (Abril tão verde)
Abril de Abril despido (Abril que dói)
Abril já feito. E ainda por fazer.

Tuesday, March 27, 2007

Os bois pelos nomes

Disse-me a R.: "Sabes como é que se chama a minha ginástica lá na escola? Educação Física!"

A propósito de "Portugal um retrato social"

Lembro-me sempre de uma história que a minha avó conta, de uma mulher que ela conheceu, quando era miúda, em Seia. Tinha muitos filhos, estavam todos sentados no chão na cozinha, e a minha avó perguntou-lhe:
"- O que é que você vai fazer para o almoço?"
" - Arroz."
" - Arroz com quê?"
" - Arroz com quê?! Com nada!"

Pois é, mas parece que, afinal, antigamente é que era bom...

Não se deve ouvir a conversa alheia...

Desde que as aulas começaram, tenho almoçado num restaurante pequeno, com comida portuguesa, que fica lá perto. Um dos fregueses habituais é um senhor que eu conhecia de vista, já há alguns anos, cego, que costuma pedir no Metro do Rossio. Esta semana, estava a almoçar sozinha, e fui ouvindo a sua historia, que ele contava a outro cliente da casa.

Fiquei, assim, a saber que ele recebe uma pensão do Estado, de 287€. Paga, depois, 250€ pelo quarto onde vive. Segundo as suas palavras, fica com 37€ para comer por mês. O restante, suponho, consegue pedindo no Metro. Ora, estava ele a contar que tinha sido contactado por uma senhora da Segurança Social, para passar a ir a uma instituição qualquer almoçar e jantar todos os dias. Ele perguntou se podia continuar a pedir, ao que ela respondeu que não. Sendo assim, não aceitou, porque "perdia a sua liberdade". "Prefiro passar fome", concluiu.

E eu fiquei sem saber o que pensar. Devemos ficar contentes por a Segurança Social querer tomar assim conta das pessoas? Mas porque é que não lhe arranjam antes um emprego? Ou será que pedir no Metro já é um emprego? Agora, parece-me bem triste que se tenha de escolher entre passar fome e ser livre, ainda que essa liberdade dependa da caridade alheia. Devo dizer, contudo, que o dito senhor não é uma criatura miserável nem amargurada, e falava da situação como qualquer pesssoa fala das suas angústias em relação ao emprego.

Serviço público como deve ser

Tomei hoje a minha meia de leite matinal num café onde havia um telefone público daqueles azuis. E não é que por cima estava uma folha com todos os números de telefone de emergência possíveis de imaginar (desde o centro anti-venenos à assistência 24h da PT)?

Friday, March 23, 2007

Afinal, os bons são mais do que os maus

Li uma história fantástica esta semana. Uma bookcrosser portuguesa tinha enviado um livro seu para circular em empréstimo. O livro foi parar ao Brasil e nunca mais deu sinal de vida. Não é que agora, passado muitos meses, ela o recebeu em casa, porque um brasileiro encontrou o livro num alfarrabista, leu no seu interior a etiqueta BC, viu que era de uma colecção particular, comprou-o e foi à procura da dona para o devolver?

Fez-me lembrar aquela vez em que o pai da P. estava em casa a receber vários telefonemas de um senhor que estava fora do país e queria contactar a família, para dizer que tinha chegado bem, e não conseguia, porque havia uma confusão de linhas telefónicas e a chamada ia sempre parar àquele número. Acabaram por combinar que o pai da P. ficava com o número e contactava directamente a família o senhor. Curiosamente, anos mais tarde, viemos a descobrir que o tal senhor era o futuro cunhado da P...

Enfim, a vida está cheia de coincidências e de pequenas generosidades.

Monday, March 19, 2007

Boas notícias!

Alterei os settings do blogue e todos vocês podem agora fazer comentários sem estarem registados. Apareçam!

Livres para amar

"O que é ser livre?" perguntou-me hoje a R. "Meu Deus", pensei. Como é que eu explico a uma miúda de quatro anos o conceito de liberdade? Lá puxei da imaginação e fui dizendo que a liberdade é coisa mais importante do mundo, que é podermos fazer o que quisermos, desde que não façamos mal a ninguém e respeitemos os outros.

"- Eu não faço mal a niguém. E os maus?"
"- Os maus fazem coisas más com a liberdade, por isso prendemo-los, para lhes tirar o bem mais precioso. Sabias que temos muita sorte, porque há países onde não há liberdade? Não podemos falar nem gostar de quem queremos."

" - Olha, eu gosto muito de ti, por isso vou dar-te um abraço muito apertado!"

Juro que comecei a conversa um bocado a falar mais para mim, para ver se conseguia explicar-lhe, do que para ela. E acabei com um dos melhores momentos da minha vida...

Sunday, March 18, 2007

Viva a Avó Teresa e a coragem com que entrou nos noventa anos!

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos.

David Mourão Ferreira

Wednesday, March 14, 2007

Linha do Oeste

A viagem de comboio de ida e volta a Guimarães foi feita num ambiente tão calmo e civilizado que quase me convenci de que estamos num daqueles países em que viajar de comboio para trabalhar e estudar é uma actividade comum. Dei comigo a pensar numa viagem que fiz com o meu primo P., há uns vinte anos, num Domingo à noite, num comboio carregado de "magalas", onde nem sequer havia lugar para nos sentarmos. E lá fizemos três horas de pé, no corredor entre os bancos, a ouvir as histórias do "meu primeiro", do Costa, do Silva e do Tavares. Claro que, hoje, todos os militares (que já são - felizmente - apenas os voluntários) vão de carro para o quartel, desdenhando o desconto que a CP lhes oferece. E eu, na nostalgia de chegar às onze da noite a Guimarães num comboio vazio, e na lembrança da óptima juventude que tive, quase me distraía e ia tendo saudades dessas viagens...

Wednesday, March 7, 2007

Cinco décadas para isto

Assisti, hoje, com genuína emoção a alguns momentos transmitidos pela RTP, no aniversário dos seus 50 anos. Realmente o país mudou, e mudou muito, neste meio século e a RTP é o nosso auxiliar de memória, com as imagens que captou. Em alguns momentos, como se diz agora, ela própria fez história. E como cinquenta anos abrangem a maior parte da vida (ou toda) daqueles que estão vivos hoje, quando vemos imagens do Zip-zip, do Mário Viegas, do Sousa Veloso ou do Vasco Granja, vemos também uma parte de nós mesmos e revisitamos boas memórias do nosso passado. É, pois, um momento de sorriso nos lábios. Que se me acabou quando vi o Cavaco, mais a sua Maria (de mala no bracito) a fazer a visita guiada às novas instalações, depois da benção do D. José Policarpo. Não sei porquê, mas a magia foi-se.

Sunday, March 4, 2007

A lengalenga que a fungagazita trouxe da escola

Eu tenho uma amiga, a sombra,
que anda comigo e não fala.
Por mais que puxe conversa,
sempre a marota se cala.

Logo que corro para o sol
estende-se a sombra no chão.
Pisam-na todos os pés,
e senta-se nela o cão.

Thursday, March 1, 2007

AS ÁRVORES E OS LIVROS

As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.
Jorge Sousa Braga, Herbário, Lisboa, Assírio & Alvim, 1999

A malta era com ginja!

Mandaram-me uma imagem de um jogo de damas polaco, em que as peças eram copos de vodka, que se iam bebendo à medida que se perdiam (ou ganhavam?) peças. Ora isto é uma grande ideia para as festas de família, em vez dos tradicionais King, sueca ou Pictionary. Imagino que, no Natal, ao fim de três ou quatro joguitos, até ver a Música no Coração iria ser uma aventura fascinante, com um coro muito jeitoso de Von Traps à portuguesa a acompanhar.

Tuesday, February 27, 2007

Pelo menos a miúda não tem falta de auto-estima

"O meu nome é MG
tenho muitos amigos
e todos me adoram.
Os meus pais não percebem
que uma filha como eu
foi a melhor coisa
que lhes aconteceu."

Esta é a letra do genérico dos desenhos animados MG - Miúda Gira (só o nome...). Isto é que é pôr as expectativas dos miúdos a um nível realista, hein?

Monday, February 26, 2007

O feitiço do tempo

Estou a reler um livro que li há 20 anos atrás, chamado Momo, do mesmo autor de História Interminável, Michael Ende. Curiosamente, praticamente não me lembro do livro, cuja história gira em torno da forma como gerimos o nosso tempo nos dias de hoje, se a nossa prioridade é correr atrás do tempo ou gozá-lo com as pessoas de quem gostamos. O livro tem uma visão muito pessimista do mundo moderno, porque me parece que, apesar de tudo, hoje nos esforçamos bastante (uns mais do que outros, é certo) para estar com a nossa família e os nossos filhos. É ter uma imagem muito poética da sociedade tradicional pensar que antigamente as crianças eram mais felizes e passavam muito tempo com as suas famílias, em longas conversas e brincadeiras. A verdade é que sempre houve crianças (e adultos) felizes e infelizes e que, culturalmente, aumentou muito o respeito e os cuidados que se têm com as crianças. Também é verdade que às vezes nos deixamos enrolar no ritmo da metrópole e que, se calhar, há pequenas coisas que podíamos fazer todos os dias para gastar melhor o nosso tempo. E não posso deixar de pensar nos binóculos feitos de rolos de papel higiénico que, finalmente, consegui fazer com a R. na sexta-feira passada, com os quais ela brincou imenso aos exploradores. Bendita meia-hora, valeu mais do que muitos dias chatos.

Sunday, February 25, 2007

90!

O meu avô faz hoje noventa anos. Havia muito para dizer, mas digo apenas "Obrigada".

Friday, February 23, 2007

Somos filhos da madrugada

Pois é, somos todos filhos de uma qualquer madrugada. Eu, que ainda nasci na noite escura do fascismo, prezo muito a madrugada que o 25 de Abril trouxe. E dessa madrugada faz, indubitavelmente, parte a música de Zeca Afonso. O "Grandola" é, para mim, símbolo de luta pela liberdade e da coragem que foi preciso ter para fazer o 24 e o 25 de Abril (porque a verdade é que hoje conhecemos o desfecho, mas os capitães não podiam ter a certeza de que tudo ia correr pelo melhor).

Percebo que Zeca Afonso seja amado por uns e menos amado por outros, precisamente pela associação tão forte à sua posição política e ao 25 de Abril. Mas isso só faz sentido para aqueles para quem essa data tem algum significado. E, dado que a maior parte dos jovens de hoje não parece sequer saber o que foi a ditadura e a revolução que acabou com ela, não há razão para gostarem ou desgostarem de Zeca Afonso por isso.

Sendo assim, sobra a obra musical, à qual, aparentemente, não se liga grande importância. Os músicos mais jovens actuais não consideram Zeca Afonso uma referência; para os mais antigos parece ser um passado já distante, algo que diz respeito a uma fase já passada das suas carreiras. E é injusto. É injusto porque a música tradicional portuguesa é diversa, rica e muitíssimo adaptável a novos contextos. É injusto porque Zeca Afonso, dizem os especialistas, inovou e abriu novas portas neste campo. E, depois, não deixa de ser curioso que quem se ouve por aí a cantar as suas músicas sejam precisamente os filhos daqueles que tiveram de fugir para o Brasil no pós 25 de Abril, que votam à direita (direitíssima...) e que cantam a "Maria Faia" lado a lado com o fado marialva. Ironias...

Wednesday, February 21, 2007

Oceanos de harmonia

Não, não é uma nova marca de música para meditar. É que hoje, toda a família foi ao Oceanário. Eu já adorava o Oceanário, um dos lugares mais bonitos e inteligentes de Lisboa (e esta? Lugares inteligentes, hei-de usar mais vezes...), mas quando vi a R. sentada do chão, a desenhar peixinhos e o A. a olhar, esbugalhado, para a enorme janela de água azul, enquanto bebia o biberão, rendi-me para sempre à harmonia e ao amor familiares adornados de azul.

Monday, February 12, 2007

Repete, repete, repete

A SIC Radical repete até à exaustão os episódios das primeiras séries do Gato Fedorento, de tal maneira que já nem consigo achar piada a alguns deles - ainda por cima, já editados, e vistos e revistos, em DVD. Mas enfim, compreende-se, é um canal por cabo e os episódios já têm uns tempos. Agora, alguém me explica porque é que a RTP já repetiu DUAS VEZES o Especial 2007 e nos brindou ontem à noite com o mesmo programa que já tínhamos visto antes e depois no Ano Novo? Terá sido porque o referendo de ontem também era uma repetição?

Thursday, February 8, 2007

A palmilha dupla

Há uns quinze anos, fiz com os meus pais, a minha irmã e a P. (o quinto elemento da nossa família, que sempre deu sentido ao facto de os carros serem para cinco pessoas) um fim de semana alargado na região de Monsanto. Passámos em Penha Garcia, onde havia uma feira. Ora eu, sempre friorenta, precisava de umas meias e resolvi aproveitar a ocasião. Encontrei o feirante que tinha o pretendido e que começou a mostrar-me a mercadoria, comparando qualidades e preços e terminando com um conselho: "Ó menina, leve estas, que são de palmilha dupla". Eu, claro, pensei que era uma manobra de marketing para me vender umas meias um pouco mais caras mas, num gesto simultaneamente magnânimo e radical, comprei dois pares. E não é que comprei as meias mais quentes e duradouras da história do vestuário português? A tal palmilha dupla revelou-se quentinha, confortável e resistente. E durante todos estes anos, não me cansei de chamar a atenção da família "Sabem o que eu trago hoje calçado? As meias de palmilha dupla da feira de Penha Garcia". Deitei hoje o segundo par fora e acho que vou ter saudades delas...

Sunday, January 21, 2007

O quarto de solteiro

Na Serra dos Candeeiros, há uma tradição ligada à casa e ao casamento, que é a seguinte: quando um casal constrói a sua casa, inclui um quarto que se destina a ser o quarto de solteiro do homem. Para lá, ele leva a sua mobília de solteiro e todos os seus objectos pessoais. O resto da casa, é responsabilidade e pertença da mulhar. Ora, aqui está uma tradição que às vezes nos faz falta. Quem nunca desejou ter em casa um quarto com aquela cama de dossel da infância mais a colecção completa da Patrícia e da Daniela? E qual é o homem que nunca lamentou o facto de não poder expor na sua casa os posters de Ferraris, Kawasakis ou aviões 747? Pois é, definitivamente, os arquitectos não estão atentos e os apartamentos de hoje em dia não respondem eficazmente às nossas necessidades.

O melhor do mundo

Como dizia o outro, são as crianças. E, logo a seguir, os amigos e a família, digo eu. É uma enorme felicidade poder contar com todos eles, que estão sempre lá quando é preciso. Obrigada a todos!

Monday, January 15, 2007

Devolvido ao remetente

Tenho pensado bastante no referendo para a liberalização do aborto que se avizinha. Ouvi ainda há pouco uma comentadora televisiva regojizar-se com a organização e participação dos cidadãos. Ora, a mim, não me parece grande capacidade de organização surgirem dezenas de movimentos a lutar pelo mesmo. Se só há duas opções, o sim e o não, porque é que há tantos movimentos? E, digam-me lá, porque é que as campanhas são tão pobres, ideológica e graficamente? Quem são estas pessoas que se (des)organizam?

Ainda por cima, este não é um assunto em relação ao qual as pessoas mudem de opinião, pelo que as campanhas pelo sim e pelo não me parecem absolutamente desnecessárias. Parece-me que faltam é campanhas a insistir com os cidadãos para irem lá pôr o papelinho. Porque é uma vergonha se não houver percentagem de votos suficiente para o referendo ser válido. Ainda é uma vergonha maior se é válido e ganha o não, mas é, apesar de tudo, uma vergonha mais digna.

Sunday, January 14, 2007

A minha mãe toca sempre duas vezes

É sabido que crias e progenitores possuem a capacidade de se reconhecer mutuamente através do cheiro. Nós, humanos, como animais que somos, não constituimos excepção. Por isso mães e filhos se conhecem pelo cheiro. Também por instinto, as mães acordam com o choro dos seus bebés e não dos outros e identificam as suas mãos, e até as asneiras que fazem sem dificuldade...

A minha mãe tem duas ou três coisas pelas quais eu seria capaz de a reconhecer no meio de uma multidão. Uma é a forma de se assoar. Não é especialmente ruidosa ou aparatosa, mas uma vez, num centro comercial, nem precisei de me virar para saber que era ela...


Outra coisa é a forma de bater à porta. Tenho uma campainha com algumas décadas e um temperamento muito próprio. Para conseguir que toque, para mim, é dedo espetado e vigor (felizmente que toca tão alto que, na rua, sei se está a tocar lá em cima). Pois a minha mãe consegue, não sei como, arrancar um toque suave, feito de dois toques breves, sempre igual. Sempre igual. E inconfundível. Como a minha mãe.

Friday, January 12, 2007

Que saudades da serra e da carqueja em Maio

O carteiro azul

Adoro a sensação de o carteiro me entregar em mão uma carta, mesmo que ele já venha azul do esforço de subir ao segundo andar e nem consiga dizer sem ofegar "Assine aqui, por favor". Eram duas cartas das finanças, mas isso não interessa...

Tuesday, January 9, 2007

O título do blogue

Começo com aquele clássico ultra pessoal da "nossa música". Porque, mesmo na era do digital, não há nada que chegue a uma carta na caixa do correio.

Correio Azul

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar estas cinco nuvens negras
relembra-me as regras
do saber viverre
põe-me o sentido nos sentidos
olfactos ouvidos
à vistade tactos
do teu paladar

Manda-me uma carta em correio azul
p'ra afastar esses blues de pacotilha
renega e perfilha
respectivamente
a torpe indiferençae o amor ardente
amor tão ardente
que dos erros meus má fortuna se ausente

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que me deixe a face roburizada
promete-me a noite fatigada
de termos aberto o nosso nexo
ao sexo
da vida
porção destemida
da nossa emoção

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
que branqueie o passado num momento
paixão, é no corpo o sentimento
que faz da razão montanha russa
aguça
o encanto
mas no entretanto
faz estragos mil

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Manda-me uma carta em correio azul
para eu guardar no castanho dos armários
no meio de testemunhos vários
escritos por letras tão distantes
murmúrios amantes
que a vida me oferece
só por muito amar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
qual em nós mais frequente
qual em nós mais frequente
amor ardente
cada vez mais frequente

Sérgio Godinho, in Domingo no Mundo, 1997