Hoje tive uma reunião na escola para (começar) a perceber aquilo a que os miúdos estão sujeitos este ano e estou que nem posso.
Primeiro, o exame (ao contrário das provas de aferição feitas antes) não é feito na escola dos alunos e sim numa escola central, do agrupamento. O que é normal em exames do secundário. Mas estes miúdos têm nove anos...
E como será a logística? Pois, ninguém sabe. Quem os leva, como se sentam (o mais certo é ser por ordem alfabética, numa sala cheia de miúdos que nunca viram, com um professor desconhecido a vigiar), como serão geridos os intervalos, como se vão orientar numa escola que não conhecem, normalmente muito maior do que a sua? Pois, ninguém sabe.
Mas sabe-se que a prova é feita obrigatoriamente com "caneta preta indelével" e que só podem levar o material para a prova e tem de ser em saco de plástico transparente com fecho!!
Ah, e já agora, quando se soube tudo isto? No último dia de aulas antes da Páscoa, à tarde. E quando é o exame? Daqui a um mês.
E a cereja no topo do bolo? Os professores que vigiam não podem ser do primeiro ciclo nem da área da prova, têm de ser do secundário e de outra área, não vá haver alguém que conheça o programa a vigiar provas, e é sabido que os professores do primeiro ciclo são seres menores e pouco sérios...
E nem vou entrar em aspetos pedagógicos, como miúdos de 9 anos terem de ouvir, antes da prova, quinze minutos de instruções lidas pelo vigilante, ou nos critérios de avaliação, que parecem feitos para pequenos criminosos, a precisar de ser severamente castigados.
Enfim, estou que nem posso. Será que conseguiremos descratizar brevemente?
Friday, April 5, 2013
Thursday, March 21, 2013
Férias
Por estes dias, os miúdos estão de férias em casa da avó e, de repente, é mais fácil levantar e sair de casa a horas, chega-se ao fim do dia e vai-se ao cinema ou manda-se uma mensagem ao marido a dizer "vou aqui ou ali e já venho", não se cozinha grande coisa, descansa-se, veem-se as séries de televisão de que se gosta... parece que daqui a uns anos, o futuro poderá ser assim. Ainda bem que ainda falta muito!
Wednesday, March 20, 2013
Melodias de sempre...
Hoje, enquanto trabalho, saltito de youtube em youtube e revisitei esta música do Serge Gainsbourg. Nunca tinha prestado atenção à letra e encantou-me descobrir os meandros dos desamores, tão datados (boeings, películas de 200 asa :-))e tão atuais. Já se sabe que adoro letras francesas e esta tem uma poesia particularmente melodiosa, cheia de trocadilhos deliciosos.
L'ANAMOUR
Aucun Boeing sur mon transit
Aucun bateau sur mon transat
Je cherche en vain la porte exacte
Je cherche en vain le mot exit
Je chante pour les transistors
Ce récit de l'étrange histoire
De tes anamours transitoires
De Belle au Bois Dormant qui dort
Je t'aime et je crains
De m'égarer
Et je sème des grains
De pavot sur les pavés
De l'anamour
Tu sais ces photos de l'Asie
Que j'ai prises à deux cents Asa
Maintenant que tu n'es pas là
Leurs couleurs vives ont pâli
J'ai cru entendre les hélices
D'un quadrimoteur mais hélas
C'est un ventilateur qui passe
Au ciel du poste de police
Je t'aime et je crains
De m'égarer
Et je sème des grains
De pavot sur les pavés
De l'anamour
Thursday, March 7, 2013
Ai os entas!
Dado que sou míope desde os 8 anos, e nunca me incomodou ser caixa de óculos, até porque a minha passagem pelas lentes de contacto foi breve e atribulada (culminou com a oferta de umas descartáveis pela minha mãe, que não me deixou casar sem elas), usar óculos não é coisa que me incomode.
Mas eis que, anteontem, estava a fazer um exercício com os meus alunos com a Carta Militar e não consegui ver bem os símbolos... julgo que encolheram desde o ano passado.
Mas eis que, anteontem, estava a fazer um exercício com os meus alunos com a Carta Militar e não consegui ver bem os símbolos... julgo que encolheram desde o ano passado.
Ah, então era isso...
Um destes dias, estávamos (eu e os miúdos) na mesa da sala, a ler e a desenhar e diz o A.:
- Nós cá em casa temos um passaporte?
- Eu e o papá temos, mas vocês não, porque nunca foram a um país onde fosse preciso.
(faz-se um silêncio)
- Então e um suporte (para livros)?
- Nós cá em casa temos um passaporte?
- Eu e o papá temos, mas vocês não, porque nunca foram a um país onde fosse preciso.
(faz-se um silêncio)
- Então e um suporte (para livros)?
Monday, March 4, 2013
Os bês pelos vês ou os cês pelos pês?
Ontem, na catequese, dizia um miúdo: a minha tia tem de fazer o crisma. Pergunta outro: o que é o crisma? Diz um terceiro: é um sólido geométrico!
Friday, March 1, 2013
Gordos que percebem português...
A propósito deste post, da minha amiga F., no blogue coletivo já aqui anunciado, lembrei-me de uma história:
Nos idos anos oitenta, quando o mundo parecia muito maior e viajar era uma aventura familiar para a qual, de tempos a tempos, havia tempo e dinheiro, fizemos uma viagem de carro a Itália, ficando em vários parques de campismo, por essa Europa fora.
Em Florença, ficámos num parque ótimo, fora da cidade, onde muitos alemães e italianos faziam férias. O parque tinha uma grande piscina e claro está que - com o calor do estio italiano - eu e a minha irmã quisemos dar um mergulho. A minha mãe, que nunca gostou de piscinas, não ficou assim muito entusiasmada com os banhos, mas o meu pai aproveitou para ir connosco refrescar-se. A piscina tinha dois espaços, um maior e outro pequeno, separados por um túnel, e foi na piscina mais pequena que se passou a cena que venho contar.
Estavam na tal piscina pequena dois miúdos portugueses (os únicos que vimos no parque para além de nós, diga-se) e eis que o meu pai de aproxima, atravessando o túnel. Diz um dos miúdos: "Agora vem para aqui este gordo!...", ao que o meu pai responde "Porquê? O espaço não te chega?".
Os miúdos fugiram, a correr (a nadar....).
Nos idos anos oitenta, quando o mundo parecia muito maior e viajar era uma aventura familiar para a qual, de tempos a tempos, havia tempo e dinheiro, fizemos uma viagem de carro a Itália, ficando em vários parques de campismo, por essa Europa fora.
Em Florença, ficámos num parque ótimo, fora da cidade, onde muitos alemães e italianos faziam férias. O parque tinha uma grande piscina e claro está que - com o calor do estio italiano - eu e a minha irmã quisemos dar um mergulho. A minha mãe, que nunca gostou de piscinas, não ficou assim muito entusiasmada com os banhos, mas o meu pai aproveitou para ir connosco refrescar-se. A piscina tinha dois espaços, um maior e outro pequeno, separados por um túnel, e foi na piscina mais pequena que se passou a cena que venho contar.
Estavam na tal piscina pequena dois miúdos portugueses (os únicos que vimos no parque para além de nós, diga-se) e eis que o meu pai de aproxima, atravessando o túnel. Diz um dos miúdos: "Agora vem para aqui este gordo!...", ao que o meu pai responde "Porquê? O espaço não te chega?".
Os miúdos fugiram, a correr (a nadar....).
Thursday, February 28, 2013
Acordai!
No fim de semana passado, a R. participou num festival de coros e o coro do Conservatório de Évora cantou esta magnífica música. Antes deste uso e abuso do Grândola dos últimos dias, o Acordai foi um dos motes de protesto contra o atual governo, mas parece que não teve força suficiente para se impor. Compreendo que os tempos verbais não são os mais fáceis e que "o povo é quem mais ordena" inflama mais os espíritos do que "Acendei, de almas e de sóis, este mar sem cais, nem luz de faróis", mas confesso que me assaltam muitas dúvidas nos dias que correm, nos slogans que correm e, em especial na forma como os ânimos se inflamam.
Não me compreendam mal, se dependesse de mim estes governantes não estavam lá, foi mesmo por isso que não votei neles. Partilho a raiva e a impotência que todos sentimos e tenho, em especial, um desprezo monunental por Miguel Relvas. Mas foi o povo que os lá pôs, certo? Podemos argumentar que não foi para isto que os elegeram (não sei de que estavam à espera, mas enfim...), mas foram mesmo eleitos, disso não temos dúvida. Eleitos, pacificamente e com uma abstenção vergonhosa.
Por isso me indignam os apelos à violência que circulam pela net. Por isso gosto muito mais do Acordai. Porque a luz ao fundo do túnel diminui e afasta-se e precisamos mesmo dos tais heróis de que o poema fala. E esses serão aqueles que consigam - em democracia - inventar um futuro melhor do que este. E não aqueles aspirantes a heróis para quem uma bastonada é uma medalha, desonrando o muito que apanharam e sofreram aqueles que lutaram para que esta democracia vingasse.
Aproveito para lembrar que as autárquicas estão à porta e que este é o momento certo para que grupos de cidadãos se apresentem como alernativa.
Não me compreendam mal, se dependesse de mim estes governantes não estavam lá, foi mesmo por isso que não votei neles. Partilho a raiva e a impotência que todos sentimos e tenho, em especial, um desprezo monunental por Miguel Relvas. Mas foi o povo que os lá pôs, certo? Podemos argumentar que não foi para isto que os elegeram (não sei de que estavam à espera, mas enfim...), mas foram mesmo eleitos, disso não temos dúvida. Eleitos, pacificamente e com uma abstenção vergonhosa.
Por isso me indignam os apelos à violência que circulam pela net. Por isso gosto muito mais do Acordai. Porque a luz ao fundo do túnel diminui e afasta-se e precisamos mesmo dos tais heróis de que o poema fala. E esses serão aqueles que consigam - em democracia - inventar um futuro melhor do que este. E não aqueles aspirantes a heróis para quem uma bastonada é uma medalha, desonrando o muito que apanharam e sofreram aqueles que lutaram para que esta democracia vingasse.
Aproveito para lembrar que as autárquicas estão à porta e que este é o momento certo para que grupos de cidadãos se apresentem como alernativa.
Saturday, February 16, 2013
A propósito de faturas
Hoje fomos a uma loja aqui do bairro que vende jogos e brinquedos didáticos a preços amigáveis, e da qual eu tinha um vale de desconto, para comprar uma prendinha para uma festa a que os miúdos vão amanhã.
Depois de vermos os habituais jogos de cartas e kits de trabalhinhos, acabámos por escolher um estojo para lápis de cor feito de pano, daqueles à antiga, com muitas divisórias.
Quando vou pagar, a senhora pede desculpa e diz-me que tenho de pagar em dinheiro. "O valor é baixo", pensei eu. Mas não. O que ela me disse foi "É que sou eu que os faço e a dona da loja deixa-me vendê-los, mas não os posso registar na máquina".
E foi assim que deixei o talão de desconto para a próxima prenda e mergulhei alegremente na economia paralela. Ainda pensei fazer algum reparo, mas abstive-me. Porque me ocorreu uma frase lapidar: por estar e por outras é que Portugal nunca si da água, mas também nunca se afunda. Há sempre um recurso qualquer de imaginação e sobrevivência à espreita. O problema é que às vezes não são estojos mas contas na Suíça...
Tuesday, November 20, 2012
De maneiras que é assim
A minha amiga F tem uma parceria num blogue de tudo e nada. E como esses é que são bons, aqui fica o link: http://demaneirasqueeassim.blogs.sapo.pt/22212.html
Monday, November 12, 2012
Ao sul e ao norte
Aqui esta vossa amiga ganhou este ano (pela segunda vez consecutiva, ah pois foi :-)) o prémio do conto infantil do concurso de contos da Convenção de Bookcrossing. E não o digo (só) para me gabar, mas porque hoje ele vem MESMO a propósito e por isso o transcrevo aqui. Ora adivinhem lá quem inspirou as personagens...
PRINCESAS DO SUL E DO NORTE
Era uma vez um reino distante e sossegado, onde a vida
avançava sem grandes sobressaltos (bem, havia alguns, mas os livros de história
esqueciam-se deles com frequência) e – segundo vinha nos tais livros - o povo,
os nobres, o clero e os comerciantes viviam em paz. Nos últimos tempos, também
havia outras profissões, como banqueiros e informáticos, mas os livros de história
esqueciam-se sempre deles.
Nesse reino, reinava – como é bom de ver – um rei. Era um rei
bom (menos mau, diziam algumas línguas maldosas), que fazia o que podia para
agradar a gregos e a troianos, que é como quem diz agradar aos povos do Norte e
do Sul e aos seus ministros e conselheiros que, ultimamente, lhe davam valentes
dores de cabeça. Mas enfim, puxando daqui, empurrando dacolá, o rei lá ia
conseguindo a harmonia desejada. É verdade que, às vezes, vinham nos jornais
umas histórias menos felizes, mas o rei fazia de conta que se esquecia delas.
Ora, o rei, além do reino, do povo, dos ministros, dos
nobres, do clero, dos comerciantes, dos banqueiros e dos informáticos, tinha
também duas filhas, as princesas Ângela e Patrícia. Os ministros tinham dito
que Ângela e Patrícia não eram nomes de princesas, mas a rainha – que
habitualmente se esquecia de tudo menos das suas aias e vestidos – dessa vez
fora inflexível. Desde pequena que dizia que, se tivesse filhas, se iriam
chamar Ângela, em homenagem a uma personagem de uma fotonovela da sua infância,
e Patrícia, o nome de uma amiga da escola primária. E Ângela e Patrícia
ficaram.
As princesas eram tão diferentes como duas gotas de água e
azeite. Ângela sabia sempre o que queria e a que horas e não ficava satisfeita
enquanto não tivesse todos os que a rodeavam a trabalhar para ela (e achava
sempre que os coitados trabalhavam pouco). Patrícia nem sempre sabia o que
queria, embora soubesse sempre o que não queria, e gostava de trabalhar, mas
também gostava de se esticar ao comprido na relva do palácio, depois de um belo
ensopado de borrego a – como ela dizia – “viver um bocadinho” (Ângela nunca
almoçava, comia uma sanduíche de queijo enquanto vigiava as suas aias, para ter
a certeza de que todas cumpriam – à hora certa – as ordens que lhes dava).
As duas irmãs cresceram fortes e saudáveis, mas cada vez mais
diferentes. O rei, que se preocupava com estas duas filhas com personalidades
tão opostas, e percebendo que não seriam capazes de partilhar o mesmo reino, casou-as
com dois príncipes bons e generosos, mandou fazer obras em dois dos seus
palácios e deu a cada princesa uma parte do seu reino: a Patrícia, as terras do
Norte e a Ângela as terras do Sul. Pensou o rei, ajudado pelos seus ministros e
conselheiros, que, sendo Ângela tão trabalhadora e pontual, seria uma boa
rainha para os povos do Sul, já que estes eram conhecidos por serem preguiçosos
e se atrasarem sempre para tudo. E, de facto, assim foi. De igual forma, pensou
que aos povos do Norte, sempre cumpridores, pontuais e pouco sorridentes,
conviria uma rainha que soubesse apreciar as coisas boas da vida com um sorriso
nos lábios. E assim foi.
O problema é que Ângela nunca estava contente. Queria sempre
mais. Mais impostos, mais súbditos, mais terras, mais palácios. E o pai,
julgando fazer-lhe bem, dava-lhe tudo o que ela pedia.
Até certo dia.
Nesse dia, havia uma festa de inauguração do mais recente
palácio de Ângela (o maior e mais luxuoso que se tinha visto por aquelas
paragens). A princesa vagueava de sala em sala, procurando (e achando) defeitos
em tudo – era a obra que estava atrasada, era o chão que não estava como ela
queria, era a casa de banho… quando chegou à casa de banho, Ângela deu um
grito:
- NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃO!
- O que foi, filha? – perguntou o rei, julgando que lhe
estava a dar qualquer coisinha má.
- Não estão cá as torneiras que eu escolhi – gemia e gritava
Ângela – e eu quero TUDO, TUDO, TUDO como eu mando.
Foi nessa altura que o rei (um homem tão calmo que já ninguém
se lembrava da última vez que se tinha exaltado) olhou para a filha e a viu
feia, tão feia, tão feia, à luz de um esplendoroso sol de fim de tarde, que
agarrou a barba com toda a força (o ministro, que estava ao seu lado, diria
mais tarde que pensou que ele a ia arrancar), encheu o peito de ar e gritou com
voz de trovão:
- ACABOU! Quem tudo, tudo, tudo quer – já dizia a minha avó,
a rainha Pulquéria Belarmina – tudo, tudo, tudo perde. Ângela, vai
imediatamente para o palácio do Norte, onde vive a tua irmã, e diz-lhe que
venha ela tomar conta das terras do Sul! O ministro ainda abriu a boca para
dizer que talvez não fosse uma decisão prudente, mas lembrou-se a tempo de que
um rei de cabeça perdida pode dar ordens imprevisíveis e, não fosse ele
mandá-lo também para as terras frias, tristes e pontuais do Norte, fechou-a
mesmo a tempo.
E foi assim que a princesa Patrícia, rumou com grande alegria
às terras do Sul. Embora, como seria de esperar nela, se tivesse habituado às
brumas e à pontualidade nórdicas com um sorriso, percebeu, assim que chegou e
foi recebida com um belo ensopado de borrego, que estava fartinha de almoçar
sanduíches de queijo (mesmo sendo servidas à hora certa) e abraçou o seu novo
reino com o entusiasmo que sempre punha nas coisas boas da vida.
Quanto à princesa Ângela, os livros de história não contam
exactamente o que lhe aconteceu. Mas os mais velhos falam ainda hoje de uma
princesa que desenvolveu muito o reino do Norte, pondo todos a trabalhar com
afinco, mas que todos os dias, exactamente à uma e trinta e cinco da tarde
(depois de almoçar uma sanduíche de queijo), se fechava nos seus aposentos a chorar
com saudades do cheiro a sardinhas assadas servidas à beira das praias do Sul.
Chorava, chorava, chorava. Mas só até à uma e quarenta e dois. À um quarto para
as duas recomeçava a reinar.
FIM
Wednesday, October 10, 2012
Agora é que é dar à sola...
Ao abrigo da minha dieta em vigor, ando a tentar ignorar elevadores e escadas rolantes, o que me faz por vezes reparar em coisas que nunca tinha visto antes.
Foi assim que, hoje, reparei que é proibido andar com solas de borracha nas escadas rolantes do metro. Como diria o Peça, "e esta, hein?". Quantas pessoas cumprirão o requisito da tradicional sola de couro? Até porque, é sabido, as solas de borracha têm causado inúmeros e mortíferos acidentes nestas maquinetas do inferno! Será que já chegámos ao extremo da parvoíce, com medo de processos de tribunal?
Foi assim que, hoje, reparei que é proibido andar com solas de borracha nas escadas rolantes do metro. Como diria o Peça, "e esta, hein?". Quantas pessoas cumprirão o requisito da tradicional sola de couro? Até porque, é sabido, as solas de borracha têm causado inúmeros e mortíferos acidentes nestas maquinetas do inferno! Será que já chegámos ao extremo da parvoíce, com medo de processos de tribunal?
Friday, September 7, 2012
O estado (Novo?) dos manuais do séc. XXI
Os meus amigos aqui presentes sabem bem que eu sou pessoa de feitio conciliador, que normalmente não fico enraivecida com facilidade.
Desde que cheguei de férias que tento encarar com bom feitio e bom senso todas as más notícias que me vão chegando. E não têm sido poucas. Até agora, tenho conseguido levar a coisa com alguma calma.
Mas eis que me ponho a ver os manuais dos miúdos, que vão para o 1º e 4º ano. Ensino básico, portanto. Ora, eu defendo com unhas e dentes que é nestes anos que se aprende aquilo que de mais importante a escola nos pode dar: aprender a ler, a escrever, a contar, a pensar e a gostar de aprender. Sei que nem toda a gente concorda comigo, mas acho que consigo garantir que miúdo que se pense, que goste de saber mais e que consiga expressar claramente o que quer tem enormes vantagens para toda a vida. Já para não falar de momentos felizes de aprendizagem e - porque não? - de realização pessoal (já sei, já sei, há vida para além da escola, mas é também dela que estou a falar).
Voltando então ao tal ensino (do) básico, tenho achado, até agora, que os programas e manuais que a R. tem tido são adequados a tudo o que se disse anteriormente. Infelizmente, este ano não acontece o mesmo. Os manuais do A., que até têm palavras mágicas no nome, de mágico não têm nada. Chateia-me em especial o de português, mas são todos muito feios, cinzentões, em suma, nada apelativos para miúdos de 6 anos. É certo que os meninos do manual jã não se chamam todos manuéis e margaridas e passámos a ter yuris e lings. Mas a tentativa de ligação à realidade acaba aí.
Atenção que não estou a discutir o programa nem mesmo os conteúdos. Estou mesmo a falar da forma como eles são apresentados. Já se sabe que a escola é uma coisa muuuuito séria, que este ministro não é para brincadeiras, mas garanto-vos que a matemática se aprende melhor "a brincar"...
E havia necessidade de a autora do livro de português ter tantos textos da sua lavra? Não haverá literatura portuguesa que se possa adequar?
E, a cereja no topo do bolo, como é que miúdos que crescem a ver animadores e ilustradores maravilhosos (em filmes e livros cada vez melhores) podem criar algum tipo de empatia com ilustrações tão pobres? Já sei, a escola é uma coisa séria. Mas como é que lhes querem pedir que daqui a uns anos sejam inovadores e criativos (e produtivos e sei lá que mais) quando os estímulos são tão pobrezinhos? E porquê desinvestir agora, quando se faziam já coisas muito melhores? Em que pensam as editoras, com tantos, tão bons e tão premiados designers que nós temos?
Enfim, um nunca acabar de falta de bom senso (já para não falar do deitar para o lixo décadas de ensinamentos, de escola moderna, de bom trabalho). E o pior é que o mundo continua a girar e é só ver o que se passa, por exemplo, no mundo do e-learning para perceber que não é assim - de certeza - que se cria uma sociedade mais rica, mais culta, mais capaz.
Fica-me apenas um consolo. O de que as professoras da escola são maravilhosas, competentes, excelentes e tentaram escolher os manuais menos maus e que os vão completar com tudo aquilo que for possível, como já é hábito. Porque, caramba, o que fica é o que eles gostaram mesmo de aprender.
Desde que cheguei de férias que tento encarar com bom feitio e bom senso todas as más notícias que me vão chegando. E não têm sido poucas. Até agora, tenho conseguido levar a coisa com alguma calma.
Mas eis que me ponho a ver os manuais dos miúdos, que vão para o 1º e 4º ano. Ensino básico, portanto. Ora, eu defendo com unhas e dentes que é nestes anos que se aprende aquilo que de mais importante a escola nos pode dar: aprender a ler, a escrever, a contar, a pensar e a gostar de aprender. Sei que nem toda a gente concorda comigo, mas acho que consigo garantir que miúdo que se pense, que goste de saber mais e que consiga expressar claramente o que quer tem enormes vantagens para toda a vida. Já para não falar de momentos felizes de aprendizagem e - porque não? - de realização pessoal (já sei, já sei, há vida para além da escola, mas é também dela que estou a falar).
Voltando então ao tal ensino (do) básico, tenho achado, até agora, que os programas e manuais que a R. tem tido são adequados a tudo o que se disse anteriormente. Infelizmente, este ano não acontece o mesmo. Os manuais do A., que até têm palavras mágicas no nome, de mágico não têm nada. Chateia-me em especial o de português, mas são todos muito feios, cinzentões, em suma, nada apelativos para miúdos de 6 anos. É certo que os meninos do manual jã não se chamam todos manuéis e margaridas e passámos a ter yuris e lings. Mas a tentativa de ligação à realidade acaba aí.
Atenção que não estou a discutir o programa nem mesmo os conteúdos. Estou mesmo a falar da forma como eles são apresentados. Já se sabe que a escola é uma coisa muuuuito séria, que este ministro não é para brincadeiras, mas garanto-vos que a matemática se aprende melhor "a brincar"...
E havia necessidade de a autora do livro de português ter tantos textos da sua lavra? Não haverá literatura portuguesa que se possa adequar?
E, a cereja no topo do bolo, como é que miúdos que crescem a ver animadores e ilustradores maravilhosos (em filmes e livros cada vez melhores) podem criar algum tipo de empatia com ilustrações tão pobres? Já sei, a escola é uma coisa séria. Mas como é que lhes querem pedir que daqui a uns anos sejam inovadores e criativos (e produtivos e sei lá que mais) quando os estímulos são tão pobrezinhos? E porquê desinvestir agora, quando se faziam já coisas muito melhores? Em que pensam as editoras, com tantos, tão bons e tão premiados designers que nós temos?
Enfim, um nunca acabar de falta de bom senso (já para não falar do deitar para o lixo décadas de ensinamentos, de escola moderna, de bom trabalho). E o pior é que o mundo continua a girar e é só ver o que se passa, por exemplo, no mundo do e-learning para perceber que não é assim - de certeza - que se cria uma sociedade mais rica, mais culta, mais capaz.
Fica-me apenas um consolo. O de que as professoras da escola são maravilhosas, competentes, excelentes e tentaram escolher os manuais menos maus e que os vão completar com tudo aquilo que for possível, como já é hábito. Porque, caramba, o que fica é o que eles gostaram mesmo de aprender.
Friday, June 8, 2012
O post sobre o Euro
Ninguém pensou que este post era sobre a moeda única, pois não? Claro que não. Por estes dias - e face a notícias muito mais importantes, como a marca da pasta de dentes da seleção - todos os blogues falam de futebol. E como este mais do que modesto estaminé não quer ser exceção, vamos lá então falar do Euro 2012.
É sabido que eu gosto de futebol. É uma das minhas muitas camadas, sou benfiquista desde que me lembro de falar, tenho orgulho de ter ido ao estádio da Luz receber o anel de platina a que eu meu avô, depois de 75 anos de sócio, teve direito e ficou célebre (lá na rua, pelo menos) o meu comentário quando o meu avô me levou ao circo, tinha eu aí uns cinco anos, de que antes queria ir ao futebol. E ia mesmo, de bandeira e tudo. Foi assim que vi jogar os grandes craques dos anos oitenta e que ainda vi o Eusébio marcar uns golos, num jogo de veteranos.
2) A segunda questão é que não podemos perder. Mas também não podemos ganhar. Se perdemos, é porque temos a mania, porque embandeiramos em arco e depois morremos na praia, porque os jogadores são uns meninos mimados, que nós apaparicamos. Se ganhamos é o futebol que é o ópio do povo, ainda vai ser feriado, ninguém trabalha quando se ganha, etc.
Ora bem, a minha opinião é só uma e vale o que vale,mas aproveito a liberdade da blogosfera para informar que:
1) A Ucrânia é um país como os outros. Tem coisas boas, coisas más, gente boa e gente menos boa. E é muito feio aumentar a nossa auto-estima rebaixando os outros. E é mesmo muito feio a comunicação social, que tem responsabilidades de informação, insistir neste género de comentários.
2) Gosto de ver Portugal ganhar. Mas quando um ganha, há outro que perde e não se ganha sempre. Alguns não ganham nunca, ou ganham poucas vezes. E, pela parte que me toca, nunca apapariquei nenhum jogador nem me parece que uma eventual vitória me possa fazer deixar de trabalhar nem distrair de outras coisas. Mas ficaria contente, como fico quando um atleta português sai medalhado nos olímpicos. Porquê? Porque é o meu país e gosto de o ver ganhar. É só isto. A mim, parece-me simples.
É sabido que eu gosto de futebol. É uma das minhas muitas camadas, sou benfiquista desde que me lembro de falar, tenho orgulho de ter ido ao estádio da Luz receber o anel de platina a que eu meu avô, depois de 75 anos de sócio, teve direito e ficou célebre (lá na rua, pelo menos) o meu comentário quando o meu avô me levou ao circo, tinha eu aí uns cinco anos, de que antes queria ir ao futebol. E ia mesmo, de bandeira e tudo. Foi assim que vi jogar os grandes craques dos anos oitenta e que ainda vi o Eusébio marcar uns golos, num jogo de veteranos.
Com o passar dos anos, no entanto, tenho perdido o interesse por aquilo que se passa nas equipas e nos campeonatos nacionais, seja os daqui seja os dos países onde as "nossas" lusitanas estrelas ofuscam. Não tenho paciência para as tricas de clubes e abomino os criminosos (com cadastro e tudo) que lideram claques e transformam o apoio a um clube numa modalidade de crime organizado. E tudo isto podia aborrecer-me, mas não de impedir de apreciar os jogos. No entanto, os jogos não andam assim tão interessantes.
Exceto quando chegam os europeus e os mundiais. Claro que já ninguém acha que o futebol é só um desporto, mas talvez por serem montras de loja, onde os jogadores tentam assegurar o seu futuro, talvez por serem realmente os melhores jogadores que ali estão, talvez ainda por ser realmente diferente representar um país e não um clube, os europeus e mundiais têm realmente jogos que merece a pena ver. Com a vantagem de que só nos maçamos com isso de dois em dois anos.
Como já vai longo o preâmbulo, vou direta ao que me traz aqui. Gosto de futebol e vou acompanhar com entusiasmo o europeu. Mas, ainda ele não começou e já estou farta de uma parte dele: das notícias inúteis, das previsões ridículas (prognósticos só no fim, meus amigos, já foi dito com toda a propriedade) e - mais do que tudo - dos comentários que circulam na televisão e na net.
Há duas coisas que me incomodam particularmente:
1) É impressão minha ou todas as notícias que se ouvem sobre a Ucrânia são xenófobas ou, no mínimo, bastante desagradáveis? Ele é a prostituição como principal atividade, ele é a inflação provocada pelo Euro, ele são (juro que ouvi esta há bocado) os autocarros que são muito antigos e os candeeiros dos parques de estacionamento que ainda não estão postos...
Ora bem, a minha opinião é só uma e vale o que vale,mas aproveito a liberdade da blogosfera para informar que:
1) A Ucrânia é um país como os outros. Tem coisas boas, coisas más, gente boa e gente menos boa. E é muito feio aumentar a nossa auto-estima rebaixando os outros. E é mesmo muito feio a comunicação social, que tem responsabilidades de informação, insistir neste género de comentários.
2) Gosto de ver Portugal ganhar. Mas quando um ganha, há outro que perde e não se ganha sempre. Alguns não ganham nunca, ou ganham poucas vezes. E, pela parte que me toca, nunca apapariquei nenhum jogador nem me parece que uma eventual vitória me possa fazer deixar de trabalhar nem distrair de outras coisas. Mas ficaria contente, como fico quando um atleta português sai medalhado nos olímpicos. Porquê? Porque é o meu país e gosto de o ver ganhar. É só isto. A mim, parece-me simples.
Tuesday, June 5, 2012
Trouxe o A. da escola - poesia quentinha
O sol é uma bola amarela
que gosta das rosas
que gosta do mar
e da primeira andorinha que passa a voar.
O sol gosta de mim
o sol gosta de ti
o sol gosta de todos os meninos
que vê a brincar.
Tuesday, May 15, 2012
Dia de homenagem e de sabermos quem somos
"I hate a song that makes you think that you are not any good. I hate a
song that makes you think that you are just born to lose. Bound to
lose. No good to nobody. No good for nothing. Because you are too
old or too young or too fat or too slim too ugly or too this or too
that. Songs that run you down or poke fun at you on account of your bad
luck or hard traveling. ... I am out to fight those songs to my very last breath of air and my last drop of blood.
I am out to sing songs that will prove to you that this is your world and that if it has hit you pretty hard and knocked you for a dozen loops, no matter what color, what size you are, how you are built, I am out to sing the songs that make you take pride in yourself and in your work.
And the songs that I sing are made up for the most part by all sorts of
folks just about like you. I could hire out to the other side, the big
money side, and get several dollars every week just to quit singing my
own kind of songs and to sing the kind that knock you down still farther
and the ones that poke fun at you even more and the ones that make you
think you've not any sense at all. But I decided a long time ago that
I'd starve to death before I'd sing any such songs as that. The radio
waves and your movies and your jukeboxes and your songbooks are already
loaded down and running over with such no good songs as that anyhow.
"
Não sei a data certa desta citação de Woody Guthrie, mas tem seguramente mais de meia centena de anos. Este é o ano do centenário do seu nascimento e muitas das batalhas que travou estão longe de estar ganhas. Outras novas surgiram, entretanto. Sempre admirei este cantautor, que trilhou um caminho muito próprio, sem se deslumbrar com as luzes da ribalta, sem perder o sentido crítico. Porque, apesar de tudo e de algumas aparências, há sempre quem não se venda. Porque, como Guthrie dizia na canção "This land is your land" (aqui cantada pelo Springsteen):
"Nobody livin' can ever stop me
'Cause I go walkin' down freedom highway
Nobody livin' can make me turn back
This land was made for you and me."
E é mesmo. E não vamos voltar atrás! Grande Woody, obrigada pela música que tocas no meu subconsciente nas batalhas do dia-a-dia!
Monday, April 16, 2012
Mudam-se os tempos...
Dois jovens namorados, aí de 20 anos, no metro. E diz ele:
- A minha avó é que anda a fazer umas coisas muito giras. São uma coisas para os guardanapos, em crochet. Ela, agora, já não consegue andar, mas as mãos estão boas. Por isso, faz imenso crochet, e tem feito umas coisas muito giras. Fez um branco e amarelo... queres que te faça um porta-chaves como aquele que tu tinhas, com um coração? Eu já lhe disse que, quando for para o Algarve, levo os que ela fizer e vendo lá numa banca, a dois euros. Muito giras as coisas que ela faz.
Este diálogo, garanto-vos, era altamente improvável quando eu tinha 20 anos, impossível quando a minha mãe tinha 20 anos e motivo de internamento quando a minha avó tinha 20 anos. E gostei de presenciar esta mudança :-).
- A minha avó é que anda a fazer umas coisas muito giras. São uma coisas para os guardanapos, em crochet. Ela, agora, já não consegue andar, mas as mãos estão boas. Por isso, faz imenso crochet, e tem feito umas coisas muito giras. Fez um branco e amarelo... queres que te faça um porta-chaves como aquele que tu tinhas, com um coração? Eu já lhe disse que, quando for para o Algarve, levo os que ela fizer e vendo lá numa banca, a dois euros. Muito giras as coisas que ela faz.
Este diálogo, garanto-vos, era altamente improvável quando eu tinha 20 anos, impossível quando a minha mãe tinha 20 anos e motivo de internamento quando a minha avó tinha 20 anos. E gostei de presenciar esta mudança :-).
Wednesday, March 21, 2012
Sou portuguesa, aqui
Sou portuguesa aqui, como tão bem disse o José Fanha.
Sou portuguesa de esquerda, sempre fui. Dou um imenso valor a ter crescido neste país e neste tempo, a ser mulher e poder escolher a minha profissão, andar na universidade, sair do país se quiser (sem autorização escrita do marido) e educar os meus filhos para dizerem sempre o que pensam.
Lembro muitas vezes o meu avô Z., que - com políticas ou sem elas - dizia sempre o que pensava. E o meu avô Q., que até aos 94 anos, viveu a vida segundo princípios de compreensão, calma e tolerância. Ambos nasceram e cresceram num Portugal que, felizmente, já não existe. E, também eles, foram portugueses aqui.
Sou portuguesa aqui, num aqui que - há que ser justa - me tem sempre sorrido. Em parte por sorte, em parte porque para isso me esforço muito, em parte porque lhe sorrio sempre de volta.
Como todos os portugueses de aqui, tenho hoje motivos de revolta, de preocupação, de gestão do dinheiro para sobreviver. Como (quase) todos quero uma justiça melhor, mais igualdade de oportunidades, menos tachos e menos escândalos políticos e financeiros. E não quero o FMI, os rankings e outros países a mandar na minha vida.
Mas não acredito que fazer greve amanhã ajude a resolver qualquer um destes problemas. Para mim, uma greve faz-se para negociar algo concreto e não para mostrar insatisfação. Mas isto é para mim. Respeito todos aqueles que não pensam como eu e que acham que esta ainda pode ser uma forma de luta.
Agora o que já me parece inadmissível é que haja cartazes espalhados pela cidade a incitar veladamente à violência, ao piquete para impedir quem decide livremente trabalhar de o fazer. Ainda por cima, cartazes supostamente "de esquerda". Onde está esta esquerda nos dias de eleições?
O meu Portugal e a minha liberdade não são estas. Desejo por isso um óptimo dia de greve a quem decidir fazê-la e um óptimo dia de trabalho a quem decidir não se calar trabalhando.
Sou portuguesa de esquerda, sempre fui. Dou um imenso valor a ter crescido neste país e neste tempo, a ser mulher e poder escolher a minha profissão, andar na universidade, sair do país se quiser (sem autorização escrita do marido) e educar os meus filhos para dizerem sempre o que pensam.
Lembro muitas vezes o meu avô Z., que - com políticas ou sem elas - dizia sempre o que pensava. E o meu avô Q., que até aos 94 anos, viveu a vida segundo princípios de compreensão, calma e tolerância. Ambos nasceram e cresceram num Portugal que, felizmente, já não existe. E, também eles, foram portugueses aqui.
Sou portuguesa aqui, num aqui que - há que ser justa - me tem sempre sorrido. Em parte por sorte, em parte porque para isso me esforço muito, em parte porque lhe sorrio sempre de volta.
Como todos os portugueses de aqui, tenho hoje motivos de revolta, de preocupação, de gestão do dinheiro para sobreviver. Como (quase) todos quero uma justiça melhor, mais igualdade de oportunidades, menos tachos e menos escândalos políticos e financeiros. E não quero o FMI, os rankings e outros países a mandar na minha vida.
Mas não acredito que fazer greve amanhã ajude a resolver qualquer um destes problemas. Para mim, uma greve faz-se para negociar algo concreto e não para mostrar insatisfação. Mas isto é para mim. Respeito todos aqueles que não pensam como eu e que acham que esta ainda pode ser uma forma de luta.
Agora o que já me parece inadmissível é que haja cartazes espalhados pela cidade a incitar veladamente à violência, ao piquete para impedir quem decide livremente trabalhar de o fazer. Ainda por cima, cartazes supostamente "de esquerda". Onde está esta esquerda nos dias de eleições?
O meu Portugal e a minha liberdade não são estas. Desejo por isso um óptimo dia de greve a quem decidir fazê-la e um óptimo dia de trabalho a quem decidir não se calar trabalhando.
Monday, March 19, 2012
Dia do pai
Pai só há um. E o meu (nosso) é único e especial.
E tem-nos ensinado muitas coisas, desde sempre.
Tantas que não cabem num post de blogue.
Mas a música em baixo relembra-nos de três das mais importantes:
Que cada qual é que escolhe o seu caminho.
Que é melhor termos um nosso do que andar à deriva da maré.
E que, se perdermos a direcção, podemos sempre contar contigo e
com tudo aquilo que nos ensinas.
Obrigada, pai.
Senta-te aí (para ouvir aqui)
Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora e durante a vida inteira
Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés
Estou cansado.
Aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho pra escrever
Tens de ser tu, com o teu próprio punho
Era isto o que te queria dizer
Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade
Rio Grande (letra de João Monge)
Thursday, March 8, 2012
Alegrias :-)
Ontem, estava prestes a começar uma reunião de trabalho, esperava enquanto a pessoa que eu ia reunir terminasse um telefonema, quando toca o meu telemóvel. Era a R. E o que me queria? Dizer que a sua filha, de 9 anos, me tinha escolhido para madrinha. Na realidade, ela tinha pensado noutra pessoa, uma amiga de longa data que seria a madrinha das duas filhas. Mas eis que ela pergunta se não posso ser eu.
E foi assim que ganhei uma afilhada e comecei o dia com uma alegria interior que só visto :-).
E foi assim que ganhei uma afilhada e comecei o dia com uma alegria interior que só visto :-).
Friday, February 24, 2012
É uma boa pergunta...
a que se faz nesta TED Talk. Se fossemos nós a escrever o livro da nossa vida, que capítulos escreveríamos? Pela parte que me toca, eu prefiro não ler nem escrever muito para a frente. Chega-me gostar de reler os capítulos que estão para trás e ir escrevendo os próximos, à medida que vou avançando na história. É que durante a nossa vida vamos também lendo outras histórias, nas quais nos inspiramos para ir escrevendo a nossa :-). E se é certo que algumas decisões do enredo parecem estar nas nossas mãos, muitas outras são (boas ou más) surpresas, escritas por outras mãos, às quais a nossa história tem de se adaptar.
Bom fim-de-semana!
Bom fim-de-semana!
Thursday, February 16, 2012
+ partilha, - dinheiro, + felicidade, - stress
Ora aqui está uma experiência muito interessante. Claro que é apenas um caso isolado, de uma pessoa que mora sozinha, e que talvez não possa ser transponível na sua totalidade para a vida de todos nós. No entanto, partilho firmemente do princípio. Já está provado que trabalhar cada vez mais e ter cada vez menos disponibilidade para os outros (e para nós) não é a receita para a felicidade. Dar e receber, como dizia o Variações, devia ser a nossa forma de viver. E, ainda que não me pareça uma solução mágica para todos os problemas, pode ser uma possibilidade para resolver alguns. Curiosamente, nos últimos meses tenho feito algumas experiências de trocas bem engraçadas, e é muito giro ver o retorno que elas nos trazem.
Friday, February 10, 2012
Muros e diques que nos prendem
Nunca gostei muito desta música quando era cantada pelos seus autores Pink Floyd, mas hoje ao ouvir a versão dos Pearl Jam, de repente, fez-se um sentido qualquer tortuoso na minha mente, misturado com o "Ai Portugal, Portugal", do Jorge Palma. Estamos com medo de quê, afinal? Precisamos assim tanto de um país que nos proteja? Não seria melhor um que nos preparasse para o que desse e viesse e nos ajudasse a ir à luta? Será que é desta que rompemos o ciclo?
Enfim, é sexta-feira :-)
Enfim, é sexta-feira :-)
Thursday, February 9, 2012
Grande dia e dia em grande
Hoje foi um óptimo dia. Começou com inquéritos de rua, em bela companhia, com solinho e transeuntes muito simpáticos. Continuou com um encontro com o Miguel e a Mariana, que só me deram boas notícias e tinham um brilhozinho nos olhos de quem tem 20 anos e está apaixonado. E terminou com uma entrevista ao Arq. Manuel Vicente, um privilégio, um prazer e uma alegria de ouvir a experiência de uma vida, aliada a uma eloquência invejável e a um inconformismo crítico e refrescante.
Muito obrigada!
Muito obrigada!
Friday, February 3, 2012
A febre das notícias da noite
Ex.mos senhores jornalistas,
Serve este post para vos recordar que estas temperaturas são normais no Inverno. Sobretudo porque parece que até só vão durar dois dias e depois regressaremos aos 15 graus de máxima, em Lisboa, o que é - pode dizer-se - uma maravilhosa temperatura para esta estação.
Desta forma, agradecemos que não subam a temperatura das notícias sobre o tempo, porque não vale mesmo a pena.
Atentamente,
fungaga
Serve este post para vos recordar que estas temperaturas são normais no Inverno. Sobretudo porque parece que até só vão durar dois dias e depois regressaremos aos 15 graus de máxima, em Lisboa, o que é - pode dizer-se - uma maravilhosa temperatura para esta estação.
Desta forma, agradecemos que não subam a temperatura das notícias sobre o tempo, porque não vale mesmo a pena.
Atentamente,
fungaga
Wednesday, February 1, 2012
Discriminações...
A minha amiga Billy, neste estaminé aqui ao lado tem contado algumas histórias panamenhas de novos e velhos estilos de discriminar quem tenta levar a vida para a frente o melhor que pode.
Ora, nem de propósito, um destes dias passava eu por uma escola profissional que fica para os meus lados, quando ouço a seguinte frase vinda da boca de um dos jovens alunos "é que se vais à pneumologia e dizes que és fumador, és logo discriminado!".
E pronto, já não se pode ter um vício tão salutar como fumar que se é logo tratado como tendo um vício pouco salutar, no preciso sítio onde se tratam pessoas que ficam doentes (ou pior) por causa dele... estes sim, deviam ir em elevadores separados, para verem o que é bom para a tosse (ou catarro, neste caso).
Ora, nem de propósito, um destes dias passava eu por uma escola profissional que fica para os meus lados, quando ouço a seguinte frase vinda da boca de um dos jovens alunos "é que se vais à pneumologia e dizes que és fumador, és logo discriminado!".
E pronto, já não se pode ter um vício tão salutar como fumar que se é logo tratado como tendo um vício pouco salutar, no preciso sítio onde se tratam pessoas que ficam doentes (ou pior) por causa dele... estes sim, deviam ir em elevadores separados, para verem o que é bom para a tosse (ou catarro, neste caso).
Friday, December 9, 2011
"Há dias que nem de manhã nem de tarde se pode sair à noite..."
Pois, é como diz a música, há dias... e parece que, para quem anda a pé e de transportes pela cidade há muitos desses dias. A maior parte das vezes, esses dias divertem-me bastante, porque o insólito mora mesmo aqui ao lado.
Esta semana, ia eu calmamente de metro, fora da hora de ponta de passageiros. Que é a hora de ponta dos pedintes profissionais. E entraram dois tipos a tocar um acordeão e um teclado (por acaso, um bocado mal tocados). Eram novos na linha. De sequida, entra um dos cegos habitués, com a ladainha "quem quer ter a bondade de auxiliar..." Até aqui, nada de novo. Só que, desta vez, a ladainha é interrompida com uma enxurrada de insultos. E o que dizia? Que quem tem olhos na cara tem mas é de deixar a música e ir trabalhar! E, logo de seguida, "quem tem a bondade de auxiliar..."
Há dias...
Esta semana, ia eu calmamente de metro, fora da hora de ponta de passageiros. Que é a hora de ponta dos pedintes profissionais. E entraram dois tipos a tocar um acordeão e um teclado (por acaso, um bocado mal tocados). Eram novos na linha. De sequida, entra um dos cegos habitués, com a ladainha "quem quer ter a bondade de auxiliar..." Até aqui, nada de novo. Só que, desta vez, a ladainha é interrompida com uma enxurrada de insultos. E o que dizia? Que quem tem olhos na cara tem mas é de deixar a música e ir trabalhar! E, logo de seguida, "quem tem a bondade de auxiliar..."
Há dias...
Sunday, November 27, 2011
Monday, November 21, 2011
There's a battle outside, and it's ragin'
Uma homenagem aos meus alunos, que começam a mudar os tempos.
Tuesday, November 15, 2011
Oficina de Artes Plásticas
No Sábado passado, o A. esteve numa oficina com o pessoal do ateliermob, que começou na arquitectura de espaços públicos e terminou a fazer chapéus.
Ora vejam aqui o resultado! Que gira ficou a sombra do chapéu dele. Obrigada, Andreia e Tiago!
Ora vejam aqui o resultado! Que gira ficou a sombra do chapéu dele. Obrigada, Andreia e Tiago!
Tuesday, October 4, 2011
Verdade gandes em bocas pequenas
O que é ser amigo a valer? - perguntava-se num TPC da R.
-É dar importância aos outros - respondeu ela.
-É dar importância aos outros - respondeu ela.
Monday, September 19, 2011
Enquanto houver estrada para andar
Estava aqui a ler este post da minha amiga Leonor e lembrei-me de que hoje, por um emaranhado de coincidências que são o pão nosso de cada dia neste país minúsculo, fiquei a saber que um aluno de há quatro anos ainda fala de um trabalho que fez na minha cadeira como uma boa experiência. Saber que vale a pena trabalhar dá-me uma mistura de orgulho, ternura e coração quentinho, por poder ser uma pequenina boa influência da vida de alguém.
E, apesar de tudo e de todos, como diz o Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar...
E, apesar de tudo e de todos, como diz o Palma, enquanto houver estrada para andar, a gente vai continuar...
Wednesday, September 14, 2011
Novas profissões do pré-escolar
Com o regresso às aulas, estava a perguntar ao A. se havia meninos novos na escola. Disse-me que o irmão do Rodrigo agora também lá estava.
- E como se chama ele? - perguntei.
- Não sei, mas chamam-lhe Salvador.
- Então é esse o nome dele...
- Não é nada! Nadador-salvador?!
- E como se chama ele? - perguntei.
- Não sei, mas chamam-lhe Salvador.
- Então é esse o nome dele...
- Não é nada! Nadador-salvador?!
Monday, July 11, 2011
Ora aqui está uma forma original de agradecer
Muito bonito, este vídeo. É muito refrescante ver momentos em que as pessoas, em vez de se queixarem, param para agradecer ao mundo :-).
Tuesday, May 31, 2011
Um momento solene
Tendo em conta que cheguei ao meio da minha vida (pelo menos simbólico, já que espero passar para lá dos 80 - de preferência enxuta e com a cabeça a conseguir juntar a sabedoria da idade e a espontaneidade dos verdes anos...) impõe-se uma espécie de brinde, que ainda não tinha feito aqui. Tenho grandes expectativas para os quarenta anos, já que cada uma das décadas passadas tem sido melhor do que a anterior. Sou uma pessoa muito feliz e cheia de sorte. E a culpa é de todos vós, que sabem muito bem quem são :-). Obrigada.
Saturday, May 28, 2011
Uma letrinha apenas...
Com um crisma, um baptizado e um casamento à vista na família, o A. estava a fazer-me uma série de perguntas sobre o que eram as várias celebrações. Estava a explicar-lhe o que era o baptismo e lá lhe falei de Jesus e da sua vida. Quando ele me perguntou se Jesus tinha morrido muito velhinho, acabei por lhe contar que não, que tinha sido morto. Quis saber quem o tinha morto.
Passado um grande bocado, perguntou-me:
- Mas como é que o polvo saiu da água para matar Jesus?
É que eu tinha dito que o "povo" não o tinha salvo... mas o polvo também dava uma boa história.
Passado um grande bocado, perguntou-me:
- Mas como é que o polvo saiu da água para matar Jesus?
É que eu tinha dito que o "povo" não o tinha salvo... mas o polvo também dava uma boa história.
Wednesday, May 18, 2011
Tuesday, May 17, 2011
O Oleiro
É um filme maravilhoso este. Que serve para muitas reflexões sobre as coisas simples da vida, que ao mesmo tempo são tão difíceis.
Vi-o com a R. e perguntei-lhe que personagem é que ela achava que era. Respondeu-me:
- O miúdo, porque eu ainda não ensino ninguém. A não ser que seja o barro destravado...
Fiquei surpresa e babada com tanta eloquência infantil.
Vi-o com a R. e perguntei-lhe que personagem é que ela achava que era. Respondeu-me:
- O miúdo, porque eu ainda não ensino ninguém. A não ser que seja o barro destravado...
Fiquei surpresa e babada com tanta eloquência infantil.
Wednesday, May 11, 2011
Caramba, se o mundo fosse assim tão simples
Ontem, como todos os anos, comprei o bonequito do Pirilampo Mágico, que faz parte da campanha, que existe desde 1987, de angariação anual de fundos para a Cerci. Quando cheguei a casa, dei o boneco ao A. e tentei explicar-lhe de que se tratava. Que havia meninos que não conseguiam falar, que pensavam mais devagarinho, e que o pirilampo é uma forma de os ajudar. Pergunta ele:
"- Porque é que é mágico? Eles ficam a falar?"
"- Porque é que é mágico? Eles ficam a falar?"
Friday, May 6, 2011
Tuesday, May 3, 2011
Valeu a pena, não valeu a pena?...
Acabei agorinha mesmo de receber uma boa notícia. Um projecto no qual trabalhei e investi muito foi aprovado. E se aqui o ponho, é porque acho mesmo que vale a pena trabalhar aqui, neste rectângulo esquisito e pequenino que se fez um país. Não é enterrar a cabeça na areia, é apenas achar que não devemos desistir de lutar por coisas melhores.
Ao fim ao cabo, a República, o 25 de Abril, foram isso mesmo: circunstâncias adversas que levaram as pessoas a achar que valia a pena lutar por algo melhor. Ouvi no Domingo uma entrevista com a Felícia Cabrita, que terminou com ela a dizer que o futuro da filha ia ser estudar no estrangeiro. Acho muitíssimo deprimente que haja uma classe que está a empurrar os filhos para fora do país desta forma, a desistir assim de tudo aquilo por que têm lutado. Se os filhos quiserem ir, muito bem. Agora, isso ser projecto de vida dos país já é outra coisa.
Não gostamos de uma parte do país que temos? Pois não. Eu gostava, por exemplo, que a justiça fosse melhor e mais cega. Mas há também muitas coisas aqui de que gosto. Reconheço que há muito a mudar, mas também muito já mudou. E tenho para mim que vale a pena.
Ao fim ao cabo, a República, o 25 de Abril, foram isso mesmo: circunstâncias adversas que levaram as pessoas a achar que valia a pena lutar por algo melhor. Ouvi no Domingo uma entrevista com a Felícia Cabrita, que terminou com ela a dizer que o futuro da filha ia ser estudar no estrangeiro. Acho muitíssimo deprimente que haja uma classe que está a empurrar os filhos para fora do país desta forma, a desistir assim de tudo aquilo por que têm lutado. Se os filhos quiserem ir, muito bem. Agora, isso ser projecto de vida dos país já é outra coisa.
Não gostamos de uma parte do país que temos? Pois não. Eu gostava, por exemplo, que a justiça fosse melhor e mais cega. Mas há também muitas coisas aqui de que gosto. Reconheço que há muito a mudar, mas também muito já mudou. E tenho para mim que vale a pena.
Friday, April 29, 2011
Bons princípios
Hoje saí cedinho para uma reunião, mas a R. já estava sentada no sofá a tomar o pequeno-almoço e a ver desenhos animados. Perguntou-me:
- Onde é que vais com essa camisola?!
A camisola em questão é uma t-shirt nova que a minha irmã me ofereceu às riscas, manga curta em folhos, que achei fresca e original. Pensei: "Mau, não me digas que já estamos nesta de criticar a roupa que a mãe leva..." E respondi, já na defensiva:
- Para a escola. Porquê?
- Porque essa camisola é tãããão gira.
E assim se lava a alma de uma mãe logo pela manhã :-)!
- Onde é que vais com essa camisola?!
A camisola em questão é uma t-shirt nova que a minha irmã me ofereceu às riscas, manga curta em folhos, que achei fresca e original. Pensei: "Mau, não me digas que já estamos nesta de criticar a roupa que a mãe leva..." E respondi, já na defensiva:
- Para a escola. Porquê?
- Porque essa camisola é tãããão gira.
E assim se lava a alma de uma mãe logo pela manhã :-)!
Tuesday, April 19, 2011
Dantes era o São Pedro...
Ontem, vínhamos na estrada e começámos a apanhar mau tempo. Começam os relâmpagos e diz o A.:
- É o Picachu, ele é que manda relâmpagos!
- É o Picachu, ele é que manda relâmpagos!
Thursday, April 14, 2011
A fantasia e a realidade confundem-se...
Hoje tive uma aula particularmente difícil com os meus alunos, em especial com um grupo de meninas que não há meio de se interessar por nada. Depois de vários momentos de conversas paralelas, que chegaram ao ponto de uma estar a mostrar a outra uma roupinha que tinha comprado, em vez de estar a fazer o trabalho que estava a decorrer, tive uma fúria e dei-lhes um sermão gigante. Que, felizmente, surtiu efeito.
Quando vinha para casa, liguei à R., que está a passar estes dias em casa da avó. Perguntei-lhe o que tinha estado a fazer e quando ela me disse que tinha estado a dar uma aula aos peluches, respondi-lhe. "Olha, R., também eu..."
Quando vinha para casa, liguei à R., que está a passar estes dias em casa da avó. Perguntei-lhe o que tinha estado a fazer e quando ela me disse que tinha estado a dar uma aula aos peluches, respondi-lhe. "Olha, R., também eu..."
Friday, April 8, 2011
Fora com os pandas...
Ontem, foi dia de trazer da escola os dossiers do 2º período. Estava a ver o do A., que andou a trabalhar os meios de comunicação. Um dos trabalhinhos tinha uma televisão, onde eles tinham de dizer uma frase e desenhar o seu programa favorito. Qual era a frase? "O que eu gosto mais de ver são as notícias"...
Monday, April 4, 2011
Lógicas irredutíveis
O A. tem andado intrigado com tudo o que tem a ver com a morte. O facto de adorar dinossauros e de estes estarem extintos e só restarem ossos e fósseis ainda aumenta mais a pressão sobre o tema. Um destes dias, enquanto eu lhe dizia que tinha de comer para crescer, ele respondeu:
- Eu não quero crescer, porque depois fico velhinho e morro.
Confesso que fiquei sem grandes palavras e estava à procura de uma resposta adequada, quando ele acrescenta:
- Mas, se não comer, morro à fome, não é?
Lá está.
- Eu não quero crescer, porque depois fico velhinho e morro.
Confesso que fiquei sem grandes palavras e estava à procura de uma resposta adequada, quando ele acrescenta:
- Mas, se não comer, morro à fome, não é?
Lá está.
Wednesday, March 30, 2011
E agora, Portugal?
Na segunda-feira, este era o título do Prós e Contras. O debate foi interessante e houve duas coisas que me chamaram a atenção: a primeira foi a intervenção da Lídia Jorge, que falou dos "dois países" que existem em Portugal. Aquele que todos desprezamos, e do qual estamos cansados, e um outro, que também conhecemos muito bem, de pessoas anónimas que trabalham, que fazem coisas fantásticas, inovadoras, tenazes. Porque será que não conseguimos por todo esse potencial mais à vista? A segunda foi que é engraçado que, para estas discussões, se chamem precisamente aqueles que não são chamados para ajudar a encontrar soluções no "mundo real": as pessoas das humanidades. Ora, por um lado, isto é um pouco injusto para o pessoal das engenharias, que também é capaz de ter qualquer coisita a dizer sobre o futuro. Mas espelha uma outra realidade, que tem a ver com o facto de a crise a que chegámos ser também resultado da progressiva desvalorização daquilo que é mais importante - as pessoas e os seus méritos e valores. Tenho para mim que enquanto o que interessar for apenas o PIB, o juro, o IVA, não vamos muito longe. Porque esse sistema (do consumo, do individualismo, da competição cega) foi o que nos trouxe para onde estamos...
Monday, January 31, 2011
Que parva que eu sou
É o título da última música do projecto Deolinda, lançada no fantástico concerto da semana passada. Vale a pena ouvi-la e pensar um bocadinho no mundo parvo que estamos a construir. Fica aqui: http://www.youtube.com/watch?v=UtXZaVHAoPQ
Monday, December 6, 2010
66 anos em comum
66 anos é muito tempo, mais do que a vida de alguns, muito mais do que uma vida de trabalho, são muitas alegrias, algumas tristezas, dias felizes, dias menos bons, dois séculos diferentes, o mundo a mudar, a mudar, a mudar...
Um ENORME beijinho aos meus (nossos) avós, que casaram em 1944, quando a 2ª guerra mundial ainda não tinha acabado e que ainda cá estão hoje para fazer a festa connosco.
Um ENORME beijinho aos meus (nossos) avós, que casaram em 1944, quando a 2ª guerra mundial ainda não tinha acabado e que ainda cá estão hoje para fazer a festa connosco.
Monday, November 8, 2010
Heróis à moda de Lisboa
No Sábado, foi o lançamento do livro para o qual dei uma contribuição de algumas páginas, com um conto em que a personagem é Santo António. Foi um evento muito concorrido e muito animado, no Museu da Cidade. O tempo estava fantástico, e tudo correu muitíssimo bem.
Estava muito curiosa para ler os outros contos. Ainda não li todos, mas os que li não me desiludiram. Por isso, ide comprar o livro, que está à venda nas livrarias nacionais. Vamos pô-lo no top?
E um grande, grande obrigada a todos (vocês sabem quem são).
Estava muito curiosa para ler os outros contos. Ainda não li todos, mas os que li não me desiludiram. Por isso, ide comprar o livro, que está à venda nas livrarias nacionais. Vamos pô-lo no top?
E um grande, grande obrigada a todos (vocês sabem quem são).
Tuesday, October 19, 2010
Será a educação que os torna estúpidos?
Um dia, uma professora de matemática do secundário há décadas, ao conversar com a R. e espantada com a sua eloquência de 2 anos, disse-me: os miúdos agora são tão espertos, quando é que será que eles ficam burrinhos como nós os vemos na escola?
Esta conferência animada, de Ken Robinson, dá-nos muito que pensar sobre o que andamos a fazer nas nossas escolas. Muitas vezes vejo miúdos sedentos de aprender na primária que se desinteressam progressivamente, tornando-se adultos apáticos, e desejo sempre que não tenha sido a escola que os pôs assim. Julgo que não será completamente verdade, que há muito mais por onde pegar (a família, a vida acelerada do séc. XXI, a dispersão de informação e a sua progressiva perda de qualidade, a conjuntura de emprego), mas há realmente muita gente desmotivada e isso é preocupante, para não dizer deprimente.
Pessoalmente, a escola foi uma experiência rica e gratificante e esforçamo-nos imenso para que para a R. e o A. também seja. Aquilo que tentamos é que eles gostem de aprender e aprendam bem as bases (ler, escrever, contar, pensar...). Não há nada como gostar de aprender! O modelo de Robinson, quanto a mim, podia resumir-se a isso mesmo - aquilo que se aprende e forma como se aprende pode ir mudando ao longo da vida, mas é fundamental que não se perca esse prazer.
Esta conferência animada, de Ken Robinson, dá-nos muito que pensar sobre o que andamos a fazer nas nossas escolas. Muitas vezes vejo miúdos sedentos de aprender na primária que se desinteressam progressivamente, tornando-se adultos apáticos, e desejo sempre que não tenha sido a escola que os pôs assim. Julgo que não será completamente verdade, que há muito mais por onde pegar (a família, a vida acelerada do séc. XXI, a dispersão de informação e a sua progressiva perda de qualidade, a conjuntura de emprego), mas há realmente muita gente desmotivada e isso é preocupante, para não dizer deprimente.
Pessoalmente, a escola foi uma experiência rica e gratificante e esforçamo-nos imenso para que para a R. e o A. também seja. Aquilo que tentamos é que eles gostem de aprender e aprendam bem as bases (ler, escrever, contar, pensar...). Não há nada como gostar de aprender! O modelo de Robinson, quanto a mim, podia resumir-se a isso mesmo - aquilo que se aprende e forma como se aprende pode ir mudando ao longo da vida, mas é fundamental que não se perca esse prazer.
Monday, October 18, 2010
De boas ideias é que precisamos
E de bons princípios também. A conferência TED da Isabel Allende, está aqui e comove. Não podia estar mais de acordo com ela, não há nada mais repugnante do que quando o nosso mundo pensa que avança a espezinhar os mais fracos. É um belo, inspirador e bem humorado discurso.
Wednesday, October 6, 2010
Heróis à moda de Lisboa
Bem, agora já é oficial. Tem lançamento marcado e tudo. Podem ver aqui de que estamos a falar.
Mais um texto dos apontamentos - São Martinho cidade-jardim
Descobri, há uns tempos, este texto: uma comunicação proferida por Álvaro de Oliveira, no 1º Congresso Nacional de Turismo, em 1936. Visto hoje, parece um megalómano delírio fascista, especialmente se pensarmos como era São Martinho do Porto em 1936. À época, quem sabe?
"...uma avenida marginal se estende em sentido oposto, como dois braços que se curvam, segue a encontrar-se vis-a-vis junto à estrada da barra, semelhando no seu conjunto à baía de San Sebastian, em Espanha, onde surpreendente efeito de luz, quando à noite a sua iluminação se encontra em plena voltagem, tal qual o colar de pérolas que circunda a praia de Botafogo da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Em frente à barra, à vista do Oceano, levanta-se uma majestosa esplanada, centro irradial de tôda a sua circulação arterial, praça monumental - vestíbulo sumtuoso - destinada a servir a sua sala de visitas, tornando-se o logradouro de maior área e o seu principal centro.
Maravilha da jardinagem e arquitectura, esta esplanada tem na face voltada para a baía sôbre um pedestal em granito e mármore trabalhado, que representa a ponta do promontório de Sagres, batida pela espuma alvacenta do Atlântico, a estátua do Infante D. Henrique, - figura sonhadora olhando o mar - tal como a criou a obra magistral do escultor Francisco Franco.
Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, no centro de dois parques ajardinados, ladeiam o Infante das Descobertas.
Na face voltada para Alfeizerão, a estátua de D. Afonso Henriques, ladeada pelas do Mestre de Aviz e D. Nuno Álvares Pereira, atesta a Independência Lusitana
Uma alameda, correndo entre a linha do Oeste, corta perpendicularmente a esplanada.
Tomando a linha do fundo, a Avenida Central, de uma alameda e dois arruamentos, corre imponente, como exacto prolongamento do seu eixo, até à praça da Basílica, em primoroso estilo manuelino, erecta à Imaculada Conceição, antiga Padroeira de Portugal. Integrada está, desta arte, esta principal via na sua função de corredor nobre.
Outras avenidas, ruas e alamedas, praças e relvados.
Blocos de construção moderna, edifícios de altura uniforma, modernos hoteis, restaurantes, terraços, escolas, cinemas, campos de jogos, mercados, estabelecimentos comerciais de linhas modernas e alegres e cheios de luz.
Correios, telegrafos, telefones, repartições públicas, serviços de águas, esgôtos e saneamento, iluminação moderna numa pavimentação das mais perfeitas e recomendadas.
Aproveitamento das suas águas termais e sua esplendida praia, pontes de acêsso ao alto do Facho, ermida de Santa Ana e Santo António, cujo primeiro môrro é o mais alto da costa portuguesa.
Interêsse maior oferece o sistema adoptado para as edificações das zonas residenciais onde o problema da habitação encontrou solução interessante e justa.
Eis o meu projecto levemente esboçado nas suas linhas gerais."
"...uma avenida marginal se estende em sentido oposto, como dois braços que se curvam, segue a encontrar-se vis-a-vis junto à estrada da barra, semelhando no seu conjunto à baía de San Sebastian, em Espanha, onde surpreendente efeito de luz, quando à noite a sua iluminação se encontra em plena voltagem, tal qual o colar de pérolas que circunda a praia de Botafogo da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro.
Em frente à barra, à vista do Oceano, levanta-se uma majestosa esplanada, centro irradial de tôda a sua circulação arterial, praça monumental - vestíbulo sumtuoso - destinada a servir a sua sala de visitas, tornando-se o logradouro de maior área e o seu principal centro.
Maravilha da jardinagem e arquitectura, esta esplanada tem na face voltada para a baía sôbre um pedestal em granito e mármore trabalhado, que representa a ponta do promontório de Sagres, batida pela espuma alvacenta do Atlântico, a estátua do Infante D. Henrique, - figura sonhadora olhando o mar - tal como a criou a obra magistral do escultor Francisco Franco.
Vasco da Gama e Pedro Álvares Cabral, no centro de dois parques ajardinados, ladeiam o Infante das Descobertas.
Na face voltada para Alfeizerão, a estátua de D. Afonso Henriques, ladeada pelas do Mestre de Aviz e D. Nuno Álvares Pereira, atesta a Independência Lusitana
Uma alameda, correndo entre a linha do Oeste, corta perpendicularmente a esplanada.
Tomando a linha do fundo, a Avenida Central, de uma alameda e dois arruamentos, corre imponente, como exacto prolongamento do seu eixo, até à praça da Basílica, em primoroso estilo manuelino, erecta à Imaculada Conceição, antiga Padroeira de Portugal. Integrada está, desta arte, esta principal via na sua função de corredor nobre.
Outras avenidas, ruas e alamedas, praças e relvados.
Blocos de construção moderna, edifícios de altura uniforma, modernos hoteis, restaurantes, terraços, escolas, cinemas, campos de jogos, mercados, estabelecimentos comerciais de linhas modernas e alegres e cheios de luz.
Correios, telegrafos, telefones, repartições públicas, serviços de águas, esgôtos e saneamento, iluminação moderna numa pavimentação das mais perfeitas e recomendadas.
Aproveitamento das suas águas termais e sua esplendida praia, pontes de acêsso ao alto do Facho, ermida de Santa Ana e Santo António, cujo primeiro môrro é o mais alto da costa portuguesa.
Interêsse maior oferece o sistema adoptado para as edificações das zonas residenciais onde o problema da habitação encontrou solução interessante e justa.
Eis o meu projecto levemente esboçado nas suas linhas gerais."
Monday, September 27, 2010
E tu, distigues o céu do inferno?
Hoje é dia de vir trabalhar de bicicleta. Eu sempre andei de bicicleta fora de Lisboa, em momentos de liberdade e vento na cara, e uma coisa que fazia muitas vezes era cantar enquanto pedalava. A prova de que já me estou a habituar a circular pela cidade, é que já me apanho a trautear, normalmente para os lados do Jardim do Campo Grande, que deve ser quando meu subconsciente acha que está no campo.
Hoje de manhã, vinha a relembrar a letra do Wish you were here, dos Pink Floyd:
So, so you think you can tell
heaven from hell,
blue skies from pain.
Can you tell a green field
from a cold steel rail?
A smile from a veil?
Do you think you can tell?
Did they get you to trade
your heroes for ghosts?
Hot ashes for trees?
Hot air for a cool breeze?
Cold comfort for change?
Did you exchange
a walk on part in a war
for a lead role in a cage?
E, mesmo antes de chegar ao refrão, dei comigo a (re)pensar o significado das palavras, uma coisa que às vezes acontece com frases que sabemos de cor há tantos anos e que subitamente ganham novos entendimentos.
E, enquanto punha o cadeado na bicla, fiz ali - num instante - uma introspecção sobre esta metade de vida que já levo. Gosto de acreditar que não perdi rumo à diferença entre o que interessa e não interessa e que ainda não me acomodei. Só gostava era de conseguir, mais e mais vezes, estender a consciência do que se quer fazer às acções que se praticam. Mas, enfim, para manhã de segunda-feira não foi mau...
Sunday, September 26, 2010
Afinal, para que servem os blogues?
Em 1997, eu trabalhava na Hemeroteca Municipal de Lisboa. Para quem não sabe o que é uma hemeroteca, ou para aqueles que lhe chamavam "aquela teca onde tu trabalhas", fica a nota de que se trata de uma biblioteca dedicada a periódicos, ou seja jornais e revistas.
No trabalho que fazia, passaram-me pelas mãos muitas coisas engraçadas. De algumas tomei nota. Na sexta-feira, estava a arrumar papéis, daqueles que já vieram de casa dos meus pais, e descobri alguns dessa altura. Já os tinha deitado para a reciclagem, quando pensei: "Espera, vou mas é por no blogue!"
Poderia dizer que são textos preciosos e que de outra forma se iriam perder. Ou que são tão interessantes que merecem vir para a blogosfera. Mas, na realidade, pô-los aqui é uma forma de eu não ter pena de os mandar para o lixo. Mantenho a linha sentimental que me une a eles e arranjo mais espaço cá em casa.
Cá fica, então, uma dessas maravilhas. Da Gazeta dos Caminhos de Ferro, ano 15, n.º 357, pág. 327, 1 de Novembro de 1902:
"Recebemos a seguinte carta:
Sr. Redactor
Banco do Conde Barão, 31
Meu caro senhor: Eu acredito nos jornais como num breviário.
Ora a semana passada li nas «Novidades e outras folhas» que desde o dia 17 havia carros eléctricos de vintém para o Intendente. Nesse dia, tendo que ir aos Anjos tratar d'um negócio de certa urgência, disse comigo - calha bem; vou nos tais carros novos, em que poupo 10 reis. E vim para este largo esperar. Eram oito da manhã.
Esperei, esperei, e os carros não apareciam. O dia foi-se adiantando, a fome apertava e eu não queria sair daqui para não perder o carro. Resolvi-me a mandar a casa buscar o almoço, que devorei aqui, sobre o banco, esperando sempre ver surgir o cumprimento da promessa da companhia Carris.
E eles sem aparecerem. Cá me conservei, chegou a noite, e mandei buscar o jantar, sempre de olho à mira para os lados da Esperança. Nada!
Fez-se noite, noite amena, de atmosfera limpa e temperatura agradável. E pela noite talvez eles comecem, dizia eu; e esperei mais até que adormeci.
Acordei ao despontar do dia ao toque da primeira badalada d'um eléctrico, e olhei-o sobressaltado. Era para o Intendente.
Perguntei se era dos especiais a vintém e o condutor respondeu-me delicadamente que fosse para o inferno e chamou-me qualquer coisa.
Resolvi então esperar, sempre confiado em ver aparecer o prometido carro, seguindo o mesmo processo da véspera, passou-se todo o dia e a noite, e ontem, e hoje cá estou ainda.
Mas senhor redactor, os dias vão passando e o que não passa é o maldito eléctrico de vintém! E eu não posso mais; por isso lhe peço me diga se a companhia engoliu a promessa, ou se fui eu que engoli a peta. Ou finalmente em dia começa o tal novo serviço, porque amanhã é sábado e eu preciso de ir a casa mudar de roupa, o que não posso fazer aqui. E tenho de is aos Anjos onde continua a esperar-me o negócio de certa urgência.
O que lhe posso assegurar é que eles ainda não passaram e espero que V. dê todo o crédito a esta minha afirmação, porque lhe escrevo d'um banco, que me tem servido de sofá, mesa de jantar e leito há cinco dias.
Seu constante leitor,
Francisco Ingénuo
Não sabendo que responder ao nosso estimável e paciente leitor, remetemos o seu pedido às «Novidades» que foi o primeiro jornal que deu a notícia. Este nosso estimado colega talvez lhe responda."
No trabalho que fazia, passaram-me pelas mãos muitas coisas engraçadas. De algumas tomei nota. Na sexta-feira, estava a arrumar papéis, daqueles que já vieram de casa dos meus pais, e descobri alguns dessa altura. Já os tinha deitado para a reciclagem, quando pensei: "Espera, vou mas é por no blogue!"
Poderia dizer que são textos preciosos e que de outra forma se iriam perder. Ou que são tão interessantes que merecem vir para a blogosfera. Mas, na realidade, pô-los aqui é uma forma de eu não ter pena de os mandar para o lixo. Mantenho a linha sentimental que me une a eles e arranjo mais espaço cá em casa.
Cá fica, então, uma dessas maravilhas. Da Gazeta dos Caminhos de Ferro, ano 15, n.º 357, pág. 327, 1 de Novembro de 1902:
"Recebemos a seguinte carta:
Sr. Redactor
Banco do Conde Barão, 31
Meu caro senhor: Eu acredito nos jornais como num breviário.
Ora a semana passada li nas «Novidades e outras folhas» que desde o dia 17 havia carros eléctricos de vintém para o Intendente. Nesse dia, tendo que ir aos Anjos tratar d'um negócio de certa urgência, disse comigo - calha bem; vou nos tais carros novos, em que poupo 10 reis. E vim para este largo esperar. Eram oito da manhã.
Esperei, esperei, e os carros não apareciam. O dia foi-se adiantando, a fome apertava e eu não queria sair daqui para não perder o carro. Resolvi-me a mandar a casa buscar o almoço, que devorei aqui, sobre o banco, esperando sempre ver surgir o cumprimento da promessa da companhia Carris.
E eles sem aparecerem. Cá me conservei, chegou a noite, e mandei buscar o jantar, sempre de olho à mira para os lados da Esperança. Nada!
Fez-se noite, noite amena, de atmosfera limpa e temperatura agradável. E pela noite talvez eles comecem, dizia eu; e esperei mais até que adormeci.
Acordei ao despontar do dia ao toque da primeira badalada d'um eléctrico, e olhei-o sobressaltado. Era para o Intendente.
Perguntei se era dos especiais a vintém e o condutor respondeu-me delicadamente que fosse para o inferno e chamou-me qualquer coisa.
Resolvi então esperar, sempre confiado em ver aparecer o prometido carro, seguindo o mesmo processo da véspera, passou-se todo o dia e a noite, e ontem, e hoje cá estou ainda.
Mas senhor redactor, os dias vão passando e o que não passa é o maldito eléctrico de vintém! E eu não posso mais; por isso lhe peço me diga se a companhia engoliu a promessa, ou se fui eu que engoli a peta. Ou finalmente em dia começa o tal novo serviço, porque amanhã é sábado e eu preciso de ir a casa mudar de roupa, o que não posso fazer aqui. E tenho de is aos Anjos onde continua a esperar-me o negócio de certa urgência.
O que lhe posso assegurar é que eles ainda não passaram e espero que V. dê todo o crédito a esta minha afirmação, porque lhe escrevo d'um banco, que me tem servido de sofá, mesa de jantar e leito há cinco dias.
Seu constante leitor,
Francisco Ingénuo
Não sabendo que responder ao nosso estimável e paciente leitor, remetemos o seu pedido às «Novidades» que foi o primeiro jornal que deu a notícia. Este nosso estimado colega talvez lhe responda."
Thursday, September 16, 2010
Gentes e lugares - Maria da Conceição, em Sobreda do Bouro
Chegámos à casa que tínhamos marcado ao fim da tarde. Não foi fácil encontrar o socalco minhoto onde a quinta ficava e quem nos deu a indicação definitiva foi um homem num tractor, que tinha acabado de lá deixar a mulher, que - segundo nos disse - ali trabalhava.
Caminho encontrado, quem nos recebeu foi a D. Conceição ("Conceição ou Maria chamem-me o nome que quiserem, eles são os dois meus"). A simpatia que transmitiu foi tão contagiante que, de imediato, nos rendemos à sua pronúncia minhota, carregada de expressões para nós diferentes e até pitorescas, às suas iguarias culinárias (o leite creme que, segundo disse, lhe saiu mal, estava de chorar por mais) e à franqueza com que se pôs, e à casa, à disposição.
Mostrou-nos a casa, deu-nos ordem para a explorarmos à nossa vontade e foi tão cordial e compreensiva com os miúdos que eles se comportaram maravilhosamente e conversaram à volta dos rojões e das batatas fritas como gente graúda.
Na manhã seguinte, D. Conceição foi buscar dois póneis e ajudou os miúdos a montar, sempre sorridente, disponível e a fugir da máquina fotográfica.
Sem dúvida que, de tudo de bom que tem a Quinta do Sorilhal, o melhor é a presença alegre e afectuosa de D. Conceição.
Friday, July 30, 2010
Quem diria?
Quando chegamos aos dias de calor, é inevitável que, mais tarde ou mais cedo, dê por mim a trautear James Taylor, numa memória longínqua de um Sábado em que fui buscar a P. a um exame da Lusíada e rumámos a um agradável fim-de-semana de festa lá para Sesimbra, ouvindo uma cassete da J.
Este ano, o dia chegou hoje (já vem um bocado tarde, mas a memória tem caminhos longos e tortuosos...), à hora do almoço. De maneira que, quando voltei ao computador, lá fui ao YouTube procurar uma música de fundo a condizer.
E não é que descobri que, nos idos anos 70, o James Taylor tinha cabelo? E comprido!
Aqui fica a prova, em sons de Verão: http://www.youtube.com/watch?v=v2EZUw2mvjs&feature=fvst
Este ano, o dia chegou hoje (já vem um bocado tarde, mas a memória tem caminhos longos e tortuosos...), à hora do almoço. De maneira que, quando voltei ao computador, lá fui ao YouTube procurar uma música de fundo a condizer.
E não é que descobri que, nos idos anos 70, o James Taylor tinha cabelo? E comprido!
Aqui fica a prova, em sons de Verão: http://www.youtube.com/watch?v=v2EZUw2mvjs&feature=fvst
Tuesday, July 20, 2010
Bem-vindo ao mundo, M.!
O dia de hoje é igual, mas é diferente.
Estamos mais ricos e mais felizes.
__ __ __ __
Pequeno poema - Sebastião da Gama
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,nem houve
Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Estamos mais ricos e mais felizes.
__ __ __ __
Pequeno poema - Sebastião da Gama
Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,nem houve
Estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...
Tuesday, July 13, 2010
Bem, o Mundial ainda agora acabou, deve ser isso...
Anteontem, no carro, falávamos com o A. de como seria quando ele fosse mais crescido, para que sala iria na escola, etc., e eu perguntei-lhe:
- E vais ser bom aluno, quando fores crescido?
- Vou é ser bom jogador. Os mais crescidos trazem sempre bola!
Depois, para me por contente, disse que ia ser bom a fazer contas e que ia ler histórias de dinossauros, mas o essencial já estava dito...
Monday, July 12, 2010
La maison Channel
Um destes dias, falava-se, já não sei a propósito de quê, da Coco Channel. Diz o A.: Cocó chinelo? Pois...
Na cartografia portuguesa, qual a diferença entre mapa e carta?
A resposta mais simples e ainda assim verdadeira era: nenhuma. Uma das que obtive foi que mapa é a representação da terra e carta é uma forma escrita de correspondência. Há muito tempo que uma cotação 0 não me arrancava uma gargalhada tão grande.
Thursday, July 8, 2010
Um dos pensamentos que me atormentam é mesmo este
Diz, numa entrevista ao Público, Alberto Manguel:
"Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual."
"Pensa que, para além de não haver muitos leitores, a leitura está a perder terreno neste momento?
O que está a perder terreno é a inteligência. Estamos a tornar-nos mais estúpidos porque vivemos numa sociedade na qual temos de ser consumidores para que essa sociedade sobreviva. E para ser consumidor, é preciso ser estúpido, porque uma pessoa inteligente nunca gastaria 300 euros num par de calças de ganga rasgadas. É preciso ser mesmo estúpido para isso.
Essa educação da estupidez faz-se desde muito cedo, desde o jardim de infância. É preciso um esforço muito grande para diluir a inteligência das crianças, mas estamos a fazê-lo muito bem. Estamos a conseguir destruir aos poucos os sistemas educativos, éticos e morais, o valor do acto intelectual."
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